Nesta segunda-feira (21), especialistas voltaram a destacar a preocupação com o crescimento acelerado do câncer colorretal entre jovens no Brasil. O alerta ganhou ainda mais força após a morte da cantora Preta Gil, aos 50 anos, em decorrência da doença. Preta Gil foi diagnosticada em 2023, quando tinha 48 anos, e realizava tratamento nos Estados Unidos.
Médicos ouvidos pela BBC News Brasil classificam a situação como “assustadora” e “preocupante”, reforçando que se trata de um problema global. Apesar de a enfermidade sempre ter sido mais comum em pessoas acima dos 60 anos, o cenário mudou nos últimos anos, com um número cada vez maior de diagnósticos em adultos mais jovens.




Aumento constante preocupa autoridades de saúde
Nos Estados Unidos, autoridades de saúde já anteciparam para 45 anos a idade recomendada para exames preventivos. No Brasil, embora ainda não existam recomendações semelhantes, estudos demonstram que a tendência é de crescimento dos casos entre pessoas com menos de 50 anos.
Levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), coordenado pela pesquisadora Marianna Cancela, revela que a incidência da doença cresce de forma contínua em todas as faixas etárias. Entre homens com idades entre 20 e 49 anos, a taxa saltou de 5 para 6 casos a cada 100 mil habitantes entre 2000 e 2017. Entre mulheres jovens, o avanço também foi identificado, mas ainda não atingiu níveis tão expressivos quanto no público masculino.
A previsão para os próximos anos é igualmente preocupante. Estimativas apontam que, até 2030, o câncer colorretal será o único tipo da doença com projeção de aumento na mortalidade tanto entre homens quanto mulheres.
Outro dado que reforça a gravidade do quadro no Brasil é a constatação de que esse tipo de câncer já figura entre os que mais impactam negativamente a expectativa de vida produtiva da população.
Hospitais registram alta nos diagnósticos em jovens
Dados de instituições de referência no país corroboram as estatísticas. No Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, foi identificado um crescimento constante de casos. O oncologista Paulo Hoff destacou que, em dez anos, esse crescimento foi de aproximadamente 15%.
Na rede Oncoclínicas, o médico Alexandre Jácome observou mudanças no perfil dos diagnósticos. Alexandre Jácome afirmou que, embora não tenha sido registrado crescimento tão expressivo entre os jovens como ocorreu nos Estados Unidos, o quadro merece monitoramento e revisão das estratégias preventivas no Brasil.
O motivo para esse aumento de diagnósticos ainda não é consenso entre os médicos, mas hipóteses levantadas apontam para mudanças no estilo de vida moderno como fator determinante. Entre os fatores mais citados pelos especialistas está a transformação dos hábitos alimentares, com maior consumo de alimentos ultraprocessados, redução da atividade física e aumento do sedentarismo.
Recomendações e prevenção
Com o avanço dos diagnósticos, especialistas recomendam medidas preventivas. Nos Estados Unidos, a idade para exames foi antecipada para 45 anos. No Brasil, o Inca estuda a criação de uma estratégia nacional para rastreamento.
Exames como o teste de sangue oculto nas fezes, simples e acessível, podem ser realizados anualmente. Já a colonoscopia, considerada o padrão ouro para detecção de lesões, exige preparo e sedação, o que limita sua aplicação em larga escala.
Samuel Aguiar Jr. defendeu o rastreamento em etapas. Em média, 5% da população terá algum achado no exame de sangue oculto nas fezes e precisará de uma colonoscopia, o que torna o exame mais direcionado.
Tratamento evolui e aumenta chances de cura
Apesar dos alertas, especialistas apontam avanços significativos no tratamento do câncer colorretal, especialmente quando detectado precocemente. Quando descoberto no estágio inicial, as chances de cura ultrapassam 95%.
Mesmo nos casos em que o câncer atinge outros órgãos, o cenário atual é mais positivo do que em décadas passadas. Nos anos 1990, um diagnóstico de câncer colorretal metastático significava praticamente uma sentença de morte. Atualmente, muitos pacientes conseguem alcançar a cura, evidenciando uma mudança significativa nas perspectivas.
Médicos reforçam que sinais de alterações no intestino devem ser levados a sério, inclusive entre os mais jovens. Sangue nas fezes, mudanças no ritmo intestinal, cólicas abdominais e outros sintomas relacionados ao sistema digestivo exigem avaliação médica imediata.
