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Celular no bolso afeta espermatozoides e fertilidade masculina? Descubra

O uso crescente de celulares acompanha, quase em paralelo, o declínio na qualidade do esperma humano
Celular (Reprodução/ Redes sociais)

Celular (Reprodução/ Redes sociais)

Celular no bolso pode afetar a fertilidade masculina? Embora ainda não exista consenso definitivo da ciência, estudos sugerem que manter o aparelho próximo aos testículos – especialmente no bolso da frente da calça – pode reduzir a qualidade do sêmen. Imagine a cena: você se arruma para sair. Celular no bolso da frente, carteira no de trás, chave no outro. Tudo no lugar de sempre. Mas e se esse hábito, tão automático, estivesse interferindo na sua capacidade de ter filhos?

A pergunta parece exagerada – até um pouco dramática – mas não veio do nada. Nas últimas décadas, enquanto o celular virou extensão do corpo, a contagem média de espermatozóides no mundo caiu quase pela metade. A seguir, entenda o que já se sabe sobre essa possível relação, o que dizem os especialistas e artigos científicos, e quais hábitos realmente afetam a saúde reprodutiva masculina. Em entrevista exclusiva ao TechTudo, o Dr. Caetano Lemos, cirurgião geral e urologista, fala mais sobre o assunto no texto a seguir.

Coincidência ou efeito real?

Abaixo, o gráfico A mostra que o aumento da utilização de telefone celular (em minutos) está inversamente correlacionado à porcentagem de espermatozóides móveis. No gráfico B, é possível ver que o aumento de uso de telefone celular (em minutos) está correlacionado ao aumento da porcentagem de espermatozóides móveis des progressão lenta. Mas, calma lá: coincidência ou consequência? E agora? A ciência ainda não tem resposta definitiva, mas os indícios merecem atenção.

De onde vem essa preocupação?

A dúvida não surgiu do nada. Nos anos 2000, celulares se tornaram inseparáveis — e passaram a ocupar um lugar fixo: o bolso da frente da calça, bem ao lado dos testículos. Não demorou para surgir um alerta: será que a exposição constante a um aparelho eletrônico, tão próximo da região genital, poderia afetar a fertilidade masculina?

Coincidência ou não, nesse mesmo período, a ciência começou a observar uma queda na contagem espermática global. Para se ter uma ideia, entre 1989 e 1995, a média de espermatozoides por mililitro era de 86 milhões. Já entre 2011 e 2016, caiu para 48 milhões — segundo o estudo “Temporal trends in sperm count: a systematic review and meta-regression analysis”, publicado pela Oxford Academic. A pergunta que fica: é uma relação de causa e efeito ou apenas uma coincidência estatística?

A preocupação se apoia em dois fundamentos técnicos. O primeiro é a radiação não-ionizante, emitida por celulares conectados ao Wi-Fi, dados móveis ou Bluetooth. Esse tipo de radiação não quebra o DNA como a ionizante, mas o contato prolongado e frequente levanta suspeitas.

O segundo fator é o aumento da temperatura: aparelhos esquentam durante o uso, e os testículos são particularmente sensíveis ao calor. Eles ficam fora do corpo justamente para se manterem em uma temperatura mais baixa — e qualquer elevação térmica pode afetar a produção de espermatozoides, algo já bem estabelecido pela ciência.

O que dizem os estudos científicos

Uma das pesquisas mais citadas sobre o tema é a metanálise Effects of mobile phone usage on sperm quality – No time-dependent relationship on usage: A systematic review and updated meta-analysis, publicada em 2021. O estudo analisou 18 trabalhos diferentes, com um total de 4.280 amostras, e encontrou uma associação clara entre a exposição ao celular e a redução desses três parâmetros. Ao mesmo tempo, os autores alertam que houve grande variação entre os estudos, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

Outro trabalho que reforça essa prudência é a revisão Cell Phones and Male Infertility: A Review of Recent Innovations in Technology and Consequences, publicada em 2011. O artigo aponta uma dificuldade comum nesses estudos: não existe, ainda, um modelo padronizado para medir os efeitos dos celulares sobre a fertilidade. A reprodutibilidade dos testes, o tempo de exposição, a distância do aparelho em relação ao corpo e fatores individuais — como a presença de varicocele — podem influenciar os resultados.

E mais recentemente, em 2021, um terceiro estudo reforçou essa tendência. A revisão Current progress on the effect of mobile phone radiation on sperm quality: An updated systematic review and meta-analysis of human and animal studies também encontrou sinais de que o uso prolongado do celular pode, sim, afetar a qualidade dos espermatozoides — tanto em humanos quanto em animais. Apesar de o resumo estar bloqueado no site do periódico, a publicação original confirma essa associação.

Então dá para dizer que existe um sinal de alerta, mas não uma condenação. O que parece consenso é que alguns elementos influenciam os possíveis efeitos: tempo de exposição, distância do aparelho, se está sendo usado ou apenas guardado, e se está carregando. Ou seja, ainda falta base científica forte o bastante para bater o martelo – mas se tiver como evitar o celular grudado o dia todo no bolso, perto dos testículos, melhor.

Opinião de especialista

Segundo o Dr. Caetano Lemos, cirurgião geral e urologista com residência pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), sua conduta clínica se baseia em evidências sólidas.

Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante (ICNIRP) não indicarem riscos graves do uso do celular na fertilidade, é prudente evitar o contato prolongado do aparelho com a região pélvica.

— Dr. Caetano Lemos, cirurgião geral e urologista

Ele recomenda usar fones de ouvido ou manter o celular afastado durante chamadas longas para reduzir possíveis efeitos. O especialista também enfatiza a importância de proteger a refrigeração natural dos testículos, fundamental para a produção de espermatozoides.

“Evitar usar laptops no colo por períodos longos, roupas íntimas muito apertadas e banhos excessivamente quentes ajuda a preservar essa temperatura ideal,” observa.

Tal como as pesquisas sugerem, Dr. Caetano reforça que hábitos como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios, controle do peso, moderação no consumo de álcool e abandono do tabagismo são fatores decisivos para uma boa fertilidade e saúde sexual. O urologista afirma que utiliza o método TICS para orientar seus pacientes sobre os principais fatores que podem comprometer a fertilidade masculina.

A sigla reúne quatro elementos: T, de toxinas como álcool, cigarro e metais pesados, que prejudicam a produção espermática; I, de infecções urogenitais, como caxumba e ISTs, que podem causar danos aos testículos; C, de condições da infância, como criptorquidia e traumas escrotais, que afetam a função testicular na vida adulta; e S, de saúde sexual, incluindo libido e disfunção erétil.

“Esses fatores são comuns nos casos de infertilidade que atendo no consultório”, explica. Segundo ele, o acrônimo também serve como uma ferramenta prática: “O método TICS simplifica a autoavaliação e ajuda a guiar a investigação clínica de forma mais completa e objetiva.”

Por fim, Dr. Caetano destaca a importância do acompanhamento médico diante de dificuldades para engravidar por mais de um ano ou sintomas sexuais persistentes. “Tratamentos eficazes existem e podem ser personalizados. Existem recursos que vão desde mudanças de hábitos até medicamentos e técnicas de reprodução assistida, dependendo do caso”, conclui.

Outros fatores que afetam a fertilidade (e são mais relevantes)

Antes de culpar o celular por tudo, é bom lembrar que a fertilidade masculina depende de vários fatores. Dieta inadequada, consumo excessivo de álcool, cigarro, uso de anabolizantes, estresse crônico, sobrepeso e até o simples sedentarismo têm impactos reais e diretos na saúde reprodutiva.

A exposição ao calor excessivo (como banhos quentes, roupas apertadas e longos períodos sentado) e contato com substâncias químicas (como pesticidas e disruptores endócrinos) também afetam a fertilidade masculina. E, claro, a idade é outro fator importante: depois dos 35 anos, a qualidade dos espermatozoides começa a declinar naturalmente.

Comparado a tudo isso, o celular no bolso é apenas um entre muitos fatores possíveis. O aparelho pode contribuir para o problema, mas dificilmente é o único responsável. A fertilidade masculina é resultado de um conjunto de hábitos e condições. Focar apenas no smartphone pode fazer você perder de vista questões mais importantes. Logo, a fertilidade é mais uma peça de um quebra-cabeça que envolve estilo de vida, hábitos e saúde geral.

Com informações de Telefones celulares e infertilidade masculina: Uma revisão das recentes inovações em tecnologia e suas conseqüências, Effects of mobile phone usage on sperm quality – No time-dependent relationship on usage: A systematic review and updated meta-analysis, Current progress on the effect of mobile phone radiation on sperm quality: An updated systematic review and meta-analysis of human and animal studies e Cell Phones and Male Infertility: A Review of Recent Innovations in Technology and Consequences

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