A morte de Jordan Smelski, de 11 anos, após contrair uma infecção cerebral causada pela Naegleria fowleri durante uma viagem em família à Costa Rica, voltou a chamar atenção para os riscos associados à chamada “ameba comedora de cérebros”. O menino entrou em contato com o microrganismo ao nadar em uma fonte de águas quentes e morreu poucos dias depois em decorrência da meningoencefalite amebiana primária, doença rara e altamente letal.
A Naegleria fowleri costuma ser encontrada em lagos, rios, fontes termais e piscinas sem manutenção adequada. O organismo entra no corpo pelo nariz quando a água contaminada alcança as vias nasais, seguindo até o cérebro, onde destrói rapidamente o tecido cerebral.

Ao relembrar a perda do filho, Steve Smelski afirmou: “Jordan nadou um dia, uma vez, e, agora, ele se foi”. O menino começou a sentir fortes dores de cabeça após o passeio, retornou aos Estados Unidos e, nos dias seguintes, apresentou vômitos, confusão mental e alucinações antes de ser internado.
Segundo o pai, os médicos inicialmente acreditavam que o garoto tinha meningite, já que os sintomas são semelhantes nas fases iniciais da doença. No entanto, quando o diagnóstico correto foi confirmado, a infecção já havia provocado um intenso inchaço cerebral.
“Sete dias e meio depois de nadar, ele se foi”, lamentou Steve. “Ele não tinha problemas até então. Sua saúde era perfeita.”
Ao descrever os efeitos da doença, o pai afirmou: “Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos, você deixa de ser quem é”.
Casos aumentam em novos países e pesquisadores acompanham expansão da ameba
Levantamento publicado em 2025 pelo Journal of Infection and Public Health contabilizou 488 casos registrados entre 1962 e 2023 em todo o mundo. Cerca de 97% das pessoas infectadas morreram.
Historicamente, a maioria dos casos ocorreu no sul dos Estados Unidos, no Paquistão e na Austrália. Entretanto, pesquisadores passaram a identificar infecções em regiões onde a presença da ameba era considerada incomum, como Itália, Bélgica, Eslováquia e estados do norte dos Estados Unidos.
Na Índia, mais de 200 casos foram registrados apenas no último ano, configurando o maior surto já documentado da doença. No Brasil, uma criança de nove anos morreu em abril, no estado de Rondônia, após infecção confirmada pela Naegleria fowleri.
O parasitologista molecular Anastasios Tsaousis acredita que novos registros devem continuar ocorrendo. “Acho que haverá mais casos no futuro. Nós iremos observá-los em todo o mundo”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o aumento da temperatura da água favorece a proliferação do microrganismo. “Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa”, explica Tsaousis. “Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas.”
Ele ressalta, no entanto, que não há motivo para pânico e defende apenas maior atenção ao risco. Outra hipótese levantada pelo especialista é que os casos estejam sendo identificados com mais frequência devido à evolução dos métodos de diagnóstico. “Minha hipótese é que os números podem ter sido sempre altos e, agora, estamos simplesmente percebendo o aumento destes casos porque sabemos como fazer o teste”, afirmou.
Especialistas também observam que crianças apresentam maior probabilidade de desenvolver a infecção. O professor Ian Wright explica que a faixa etária mais afetada gira em torno dos 12 anos.
“A idade em que mais pessoas sofrem da doença ao contraírem a infecção é aos 12 anos, pois as crianças adoram esguichar água quente”, disse. “É muito cruel.”
Para Wright, a doença é extremamente rara, mas suas consequências costumam ser devastadoras. “É como um pesadelo, um filme de terror ou um romance de Stephen King”, descreveu. “É muito improvável contrair a infecção, mas, se ela ocorrer, você provavelmente irá morrer.”
Apesar da elevada taxa histórica de mortalidade, um estudo publicado na revista Communications Medicine apresentou resultados considerados promissores. Durante o recente surto registrado no estado de Kerala, na Índia, mais da metade das pessoas infectadas sobreviveu, índice muito superior à taxa histórica de aproximadamente 3%.
Os pesquisadores atribuem esse resultado ao diagnóstico mais rápido, ao maior conhecimento da doença entre os profissionais de saúde e à adoção de protocolos de tratamento mais padronizados.
Além da exposição em águas doces aquecidas, especialistas alertam que a Naegleria fowleri também pode atingir o organismo por meio da irrigação nasal realizada com água contaminada.
Em 2025, uma mulher de 71 anos morreu no estado americano do Texas após utilizar um sistema de irrigação nasal abastecido com água da torneira de um trailer durante duas semanas.
Como forma de prevenção, o Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos recomenda utilizar apenas água destilada, esterilizada ou previamente fervida e resfriada para procedimentos de higienização nasal.
Ao nadar em lagos, rios ou outras áreas de água doce aquecida, o órgão também orienta reduzir a entrada de água pelo nariz, utilizando um clipe nasal ou mantendo as narinas fechadas durante mergulhos e saltos.
