Em meados da década passada, o sertanejo era amplamente liderado por homens nas rádios e nos palcos. Esse cenário começou a mudar com “Infiel”, música que projetou Marília Mendonça e abriu espaço para uma geração de artistas mulheres, que passaram a cantar histórias de desilusões, excessos e relacionamentos conturbados sob um olhar inédito no gênero. As informações são do gshow.
A imprensa batizou o movimento de “feminejo”, mas Marília rejeitava a classificação. Em reunião com a gravadora, afirmou: “Existe rock feminino? Existe MPB feminino? Então, qual é a tua? Você acha que eu não posso concorrer com Zezé Di Camargo, com o Leonardo? Sertanejo é sertanejo, não existe feminejo”. Segundo a figurinista Flavia Brunetti, a cantora ficava irritada sempre que escutava o termo.




O impacto de Marília Mendonça
O sucesso de “Infiel” derrubou resistências no mercado. O empresário Wander Oliveira lembra que programadores de rádio diziam que “mulher não pede música de mulher” e acreditavam que incluir vozes femininas reduziria audiência. Quando a faixa entrou no top 10 das mais pedidas, esse discurso ruiu e abriu caminho para outras cantoras.
Antes de se tornar estrela, Marília já era reconhecida nos bastidores, com mais de 150 composições gravadas por outros artistas. O compositor Vinicius Poeta recorda: “Ela me disse que queria colocar na boca dos cantores o que gostaria de ouvir como mulher. A história de ‘Cuida bem dela’, por exemplo, nenhum homem teria coragem de escrever”.
Seu estilo interpretativo também se destacou. Poeta definiu como “mariliônico” a maneira única com que Marília unia dor, ironia e intensidade. “Ninguém hoje tem a personalidade para cantar como ela. ‘Infiel’, ‘Amante não tem lar’… não tem quem peite essas músicas sem ser julgado. A Marília era abraçada pela elite e pela massa. Porque os conflitos que ela cantava todo mundo sente”, afirmou.
Da negação ao empoderamento
No início da fama, Marília declarou ao g1 que não se considerava feminista, chegando a dizer que o feminismo “diminui a mulher” e que nunca havia sofrido machismo. Mais tarde, reconheceu publicamente o peso do sexismo no sertanejo e defendeu que a melhor forma de empoderamento era mostrar sua trajetória e conquistas.
Essa visão se refletia em suas músicas. Em “Troca de Calçada”, a artista deu voz a uma trabalhadora sexual. Em “Você Não Manda Em Mim”, interpretou uma mulher que deixa um relacionamento abusivo. Cada canção se tornava retrato de vivências comuns a milhares de pessoas, o que explica a imensa identificação popular.
Simone Mendes resumiu o legado: “Ela chegou com a voz, com o talento, com a doçura, com a beleza, rasgou a verdade dela e foi: ‘Eu vou tomar a minha cachaça sim, eu vou usar a roupa que eu quiser. Eu tenho esse corpo, é assim. Quem quiser gostar de mim que goste’. Isso é muito legal. Acho que não haverá outra Marília Mendonça. O legado dela é único.”
A geração que seguiu os passos dela
O caminho aberto por Marília permitiu que artistas como Lauana Prado, Ana Castela e Simone Mendes alcançassem os primeiros lugares nas paradas nacionais. Mari Fernandez, que no início foi apelidada de “Marília Mendonça do piseiro”, destacou: “Quando a Marília chegou, ela trouxe essa nova leva de cantoras. Antes, não tinha tantas. Muito do que a gente vive hoje vem do trabalho que ela plantou com toda a essência e a identidade dela.”
Após o fim da dupla com Simaria, Simone Mendes buscou parte da equipe que trabalhou com Marília, incluindo o produtor Eduardo Pepato. O resultado foi “Erro Gostoso”, canção que rapidamente se tornou hit e manteve vivo o estilo emocional que marcou a trajetória da artista goiana.
Pepato explicou: “Tudo que você faz que dá certo, você tenta repetir a dose, de acordo com a característica do artista”.
