Na última segunda-feira, 30 de junho, veio à tona um novo método utilizado por estelionatários no ambiente virtual. Criminosos passaram a investir em e-mails patrocinados para disseminar fraudes, financiando a própria plataforma que distribui as mensagens falsas aos usuários.
As mensagens chegam às caixas de entrada, especialmente no Gmail, utilizando a identidade visual dos Correios. Com a assinatura “Portal Encomendas” e um título chamativo informando que há uma entrega pendente, os golpistas buscam atrair a atenção das vítimas para um link fraudulento.

Falsa encomenda solicita dados pessoais
Ao clicar no link, a pessoa é direcionada a um site falso que solicita informações pessoais como endereço, telefone, números de identidade e até passaporte. Em seguida, o site também pede o CPF da vítima, simulando uma etapa de rastreamento da encomenda.
O golpe segue o modelo conhecido como phishing, no qual os criminosos coletam dados pessoais e os utilizam em outras fraudes. Um detalhe que chama atenção é que o próprio e-mail fraudulento apresenta o aviso de ser patrocinado, indicando que alguém pagou ao Google pelo envio da mensagem.
Ao verificar o remetente, constata-se que os dados não pertencem aos Correios, mas a uma pessoa física. O nome que aparece é o de Ana Lívia Ferreira Alves, além de um CNPJ registrado em nome de uma microempresa.
O Jornal Nacional foi até Espera Feliz, na Zona da Mata mineira, cidade onde o CNPJ está registrado. Lá encontrou Ana Lívia Ferreira Alves, que confirmou ser a dona do CNPJ, mas disse desconhecer qualquer vínculo com a fraude. “Na verdade, eu nem tenho conhecimento para fazer isso, porque como eu disse, meu e-mail é praticamente para uso pessoal. Não tenho nem motivo para enviar para ninguém, porque não tenho nem para quem enviar. Não tenho conhecimento de outros e-mail, a não ser o meu”, disse Lívia Ferreira Alves, que trabalha como doméstica.
O Google informou que realizou a verificação do anunciante, mas mesmo assim veiculou o e-mail com o logotipo dos Correios. Curiosamente, o mesmo CNPJ e endereço também aparecem em outro anúncio fraudulento sobre renovação de carteiras de motorista, que já havia sido desmentido pelo Fato ou Fake, do g1.
No modelo de e-mails patrocinados, quem paga pela mensagem pode definir o público-alvo e a região onde a mensagem será enviada, mas não tem acesso direto aos endereços eletrônicos. É a plataforma que identifica os perfis e dispara os e-mails, possibilitando que a fraude alcance potenciais vítimas.
Especialistas afirmam que a checagem feita pelos provedores de e-mail para validar os anunciantes tem se mostrado falha. “É um vício no serviço que eles estão oferecendo. Então, se eles estão se propondo a oferecer serviço, eles têm que oferecer de maneira de qualidade, segura para o consumidor. Como o e-mail é impulsionado, como o provedor daquele e-mail entra em uma função de garantidor ao impulsioná-lo, então entra muito mais para uma função de anúncio do que propriamente para uma função de comunicação privada. Então, eu entendo que ele também poderia ser responsabilizado”, afirmou o promotor Mauro Ellovitch, do grupo de Combate a Crimes Cibernéticos.
Os Correios reforçaram que não enviam mensagens por e-mail, SMS ou WhatsApp sobre bloqueios de objetos ou cobrança de taxas. A empresa afirma monitorar essas fraudes e comunica os casos à Polícia Federal quando necessário.
A recomendação para quem aguarda encomendas é utilizar apenas o aplicativo ou o site oficial da instituição, no endereço correios.com.br, onde é possível rastrear pedidos e efetuar pagamentos de tributos de forma segura.
O Google declarou que possui diretrizes claras para publicidade e utiliza uma combinação de revisão humana e inteligência artificial para detectar possíveis violações. A empresa informou que já removeu mais de 200 milhões de anúncios apenas este ano.
A auxiliar administrativa Maria Alice Socorro foi uma das vítimas desse tipo de golpe. Ela recebeu um e-mail que aparentava ser oficial dos Correios, solicitando pagamento de taxas para liberar uma encomenda. Como havia feito uma compra recentemente, acreditou na mensagem e acabou pagando mais de R$ 400. “Era tudo direitinho, bonitinho. Você jurava que estava falando com um cara do Correio, sabe? É muito perfeito o que eles fazem. Fui pagando taxas e taxas, até que acordei. O prejuízo está enorme e a gente não sabe como fazer”, disse Maria Alice.
