Daniela Pina, funcionária pública de 36 anos, viveu uma situação inesperada e difícil logo após o nascimento de sua filha caçula. Apenas seis dias depois do parto, ela sofreu o primeiro de três acidentes vasculares cerebrais (AVCs). Por acreditar que os sintomas eram apenas um sinal de cansaço do período pós-parto, Daniela não identificou os sinais do AVC.
“Eu me lembro de olhar para a minha filha mamando e comecei a babar no rosto dela. Eu não tinha força para segurá-la em meus braços e senti medo de deixá-la cair. Me sentia exausta”, conta Daniela, que também é mãe de Francisco, de 7 anos, e Catarina, de 1.





A primeira manifestação do AVC aconteceu quando a bebê tinha apenas três dias de vida. Com uma crise de pressão alta, Daniela chegou a procurar ajuda médica, onde inicialmente suspeitaram de eclâmpsia, mas foi liberada. Ao voltar para casa, ela passou a sentir enxaquecas intensas e confusão mental, agravando os sinais de alerta.
Sintomas e diagnóstico tardio
Daniela relatou que a dor de cabeça era tão forte que irradiava da nuca até os dentes. “Qualquer barulho, qualquer luz, me tirava do sério. Minhas pernas começaram a falhar e formigar e eu achei que isso era tudo sinal de cansaço dos primeiros dias de maternidade”, relembra. No entanto, mesmo com sintomas de perda de força e dificuldade de fala, ela não associou esses sinais a um AVC.
“Só quando falei com a minha mãe, que por sorte estava na minha casa me ajudando, ela soube identificar que eu não estava bem”, resume Daniela.
Ela permaneceu em casa por mais de quatro horas após os primeiros sintomas e, ao acreditar que estava apenas exausta, resolveu descansar. No hospital, sofreu outros dois AVCs enquanto estava internada, o que resultou em perda temporária de movimento nas pernas.
O impacto e recuperação
Após os AVCs, Daniela passou três dias sem conseguir mover as pernas. “Pensei que não ia mais andar. Voltar a caminhar para mim foi uma experiência mágica, inesquecível. Senti que estava voltando à vida”, conta.
O AVC ocorre quando o fluxo de sangue para o cérebro é interrompido, seja por um bloqueio ou rompimento dos vasos sanguíneos. No caso de Daniela, 25% de seu tecido cerebral foi comprometido. Ela foi diagnosticada com síndrome da vasoconstrição cerebral reversível, uma condição rara que atinge algumas mulheres no puerpério.
“Sabemos que há uma conexão com mulheres que pariram recentemente, mas ela é muito rara e vários casos de AVC ocorrem sem causa aparente”, explica o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola.
Um ano após o incidente, Daniela continua se recuperando dos efeitos dos AVCs. Ela ainda enfrenta dificuldades de memória e perdeu parte da força no lado esquerdo do corpo. “Para mim, foi como renascer praticamente junto com o nascimento da minha filha”, revela.
Espíndola orienta o público a usar o método “SAMU” para identificar sinais de AVC, um protocolo fácil de lembrar:
“No S, pedimos que o paciente sorria e analizamos se há algum entortamento. No A, de abraço, pedimos que ele levante os braços para ver se há uma diferença de força entre os membros”, explica.
“Já no M, pedimos que o indivíduo cante uma música para avaliar a memória e a dicção. Por fim, no U, lembramos da urgência de ir imediatamente ao hospital caso qualquer um dos sintomas seja identificado”, completa o médico.
Daniela teve apoio familiar
Os AVCs também deixaram sequelas faciais em Daniela, o que abalou sua autoestima. “Foi muito vergonhoso para mim. Sempre fui uma mulher muito vaidosa e me sentia mal de tomar água e sentir que ela escorria pelos meus lábios”, confessa.
Mesmo durante a internação, Daniela fazia questão de extrair leite para alimentar a filha. Aos poucos, com tratamentos intensivos no Hospital Sarah Kubitschek, ela recuperou parte dos movimentos e adaptou-se à nova realidade, ainda que com limitações.
“Me preocupo em viver a minha vida. Faço terapia, natação. Cuido da minha família como posso e tenho a sorte de contar com o apoio da minha mãe e da minha irmã para me ajudar a cuidar dos meus filhos. Mas só de poder ser mãe, de estar viva, presente, me sinto abençoada”, finaliza.
