O tenente da Rota Ronickson Pimentel dos Santos, de 39 anos, atingido por disparos na cabeça em um atentado ocorrido neste sábado (27), também é investigado pela morte de João Francisco Silva de Sousa, de 22 anos, durante uma operação policial realizada em janeiro, em Suzano, na Grande São Paulo. A apuração envolve a atuação do oficial e de outro policial militar na ocorrência que terminou com a morte do jovem.
Segundo a investigação da Polícia Militar, Ronickson comandava a equipe durante a ação realizada em 7 de janeiro e efetuou dois disparos com um fuzil. O cabo Edson Andrade Valério também teria atirado duas vezes, usando uma pistola. João Francisco morreu no local após ser atingido pelos quatro tiros.


O laudo necroscópico apontou que a morte foi causada por uma hemorragia interna decorrente dos disparos que atingiram o tórax e provocaram danos em órgãos como pulmões, coração, fígado e intestino. A operação começou após uma denúncia anônima sobre armazenamento de drogas em Itaquaquecetuba, onde os agentes prenderam um suspeito e apreenderam armas, munições, entorpecentes e objetos relacionados ao tráfico.
De acordo com o inquérito, o homem preso indicou outro endereço, em Suzano, onde supostamente haveria mais drogas e armamentos. Ao chegar ao imóvel indicado, uma chácara, os policiais afirmaram que houve confronto. Em depoimento, Ronickson declarou que João teria reagido à abordagem e que uma pistola com a numeração raspada, além de munições, foi encontrada no local. Também foram apreendidos 166 tijolos de maconha e porções de cocaína.
A câmera corporal utilizada pelo tenente registrou parte da ação, mas não permite confirmar se João disparou contra os policiais. Conforme a descrição oficial das imagens anexada ao inquérito obtido pelo UOL, Ronickson aparece dizendo “perdeu, perdeu, ladrão” antes dos disparos serem ouvidos. O documento não esclarece se houve disparo feito pela vítima contra os agentes.
A companheira de João apresentou outra versão dos acontecimentos. Segundo o depoimento dela, estava dentro da residência quando ouviu movimentação no portão. Ela relatou que João saiu para verificar a situação e que os policiais entraram no imóvel. Depois, teria sido retirada da casa por um dos agentes e ouviu os tiros enquanto era conduzida para a rua.
A investigação inicial da Polícia Militar concluiu que os policiais agiram em legítima defesa e não identificou elementos que apontassem crime. A corporação confirmou essa conclusão em março deste ano.
O Ministério Público Militar, porém, não concordou com o resultado e defendeu que o caso fosse encaminhado ao Tribunal do Júri. Por essa razão, a Justiça Militar enviou o processo para a Justiça comum em 6 de abril.
Na nova análise, o Ministério Público apontou a necessidade de aprofundar a investigação e pediu novas diligências. O promotor Alexandre Acerbi afirmou que ainda são necessários exames de confronto balístico entre as armas dos policiais e a arma atribuída à vítima, além dos depoimentos dos agentes e testemunhas, para verificar se ocorreu troca de tiros e se a força utilizada foi proporcional.
A Defensoria Pública atua na defesa de Ronickson e Edson Andrade Valério no processo. O órgão foi procurado, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
Ataque contra tenente da Rota
Ronickson Pimentel dos Santos foi baleado na cabeça poucos minutos após deixar uma academia no sábado. Imagens de segurança mostram dois homens em uma motocicleta se aproximando do policial, que estava parado em outra moto em um semáforo da avenida Goiás, em São Caetano do Sul, e realizando os disparos.
O tenente permanece internado em estado grave, porém estável. Ele passou por uma cirurgia neurológica no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André. A Polícia Militar informou que o caso exige “extrema cautela” e declarou que o policial “luta por sua vida”.
A motocicleta usada pelos suspeitos foi encontrada horas depois do ataque, abandonada na rua Roberto Koch, na zona sul de São Paulo. O veículo será submetido a perícia para coleta de impressões digitais e vestígios biológicos.
A Justiça paulista determinou a prisão temporária de dois suspeitos por 30 dias, com idades de 40 e 52 anos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, um terceiro homem, de 24 anos, foi ao Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) acompanhado do pai preso, mas não foi detido. A polícia continua investigando a participação de outras pessoas e busca esclarecer a motivação do crime.
Ronickson Pimentel é irmão de Eloá Cristina Pimentel, adolescente de 15 anos que foi mantida em cárcere privado e morta pelo ex-namorado Lindemberg Alves em 2008, em Santo André.
O tenente ingressou na Polícia Militar em 2009, após atuar como fuzileiro naval na Marinha entre 2006 e 2009. Em 2015, tornou-se oficial da corporação depois de concluir a formação na Academia do Barro Branco. Desde 2019, integra a Rota, unidade de elite da Polícia Militar paulista.
