Nesta sexta-feira (24), um estudo apresentado no Congresso de Oncologia de Berlim e publicado na revista Nature revelou que vacinas de mRNA contra a Covid-19, como as da Pfizer/BioNTech e da Moderna, podem melhorar a resposta do sistema imunológico em pacientes com câncer. A pesquisa aponta que a aplicação dessas vacinas, antes ou durante o tratamento, torna tumores mais suscetíveis à imunoterapia. As informações são do g1.
Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center e da Universidade da Flórida observaram que essas vacinas desencadeiam uma forte reação do tipo interferon, molécula essencial para ativar as defesas do corpo. Esse processo ajuda as células de defesa a identificar e atacar células cancerígenas, reativando tumores que antes se mostravam resistentes.



Vacinas de mRNA aumentam a sobrevida e a resposta imunológica
O levantamento considerou dados de mais de 880 pacientes tratados entre 2015 e 2022. Aqueles que receberam uma vacina de mRNA contra a Covid-19 até 100 dias antes ou depois do início da imunoterapia apresentaram ganhos expressivos de sobrevida.
Nos casos de câncer de pulmão avançado, o tempo médio de vida aumentou de 20,6 para 37,3 meses, e a taxa de sobrevivência em três anos passou de 30,8% para 55,7%. Em pacientes com melanoma metastático, o risco de morte foi reduzido em cerca de 60%. Esse efeito não foi identificado em pessoas que tomaram vacinas contra influenza ou pneumonia, o que reforça que o impacto é específico da tecnologia de mRNA.
De acordo com o oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, a pesquisa mostra como as vacinas de mRNA podem alterar o ambiente ao redor do tumor, tornando as células malignas mais perceptíveis para o sistema imunológico.
“Os autores foram extremamente cuidadosos. Eles conseguiram resgatar uma quantidade significativa de pacientes com câncer e avaliaram a exposição à vacina para Covid de plataformas de mRNA — que é justamente o que gerou tanta discussão durante a pandemia”, explica Stephen Stefani.
O especialista destaca que pacientes vacinados apresentaram maior expressão da proteína PD-L1, que normalmente funciona como uma barreira para o sistema imune reconhecer o tumor. “As drogas anti-PD-L1, como o pembrolizumabe, tiram essa capa. Então, quando há mais PD-L1, o alvo da imunoterapia fica mais claro e o tratamento se torna mais eficaz.”
Em termos práticos, o mRNA presente na vacina estimula uma onda de interferon tipo I, que ativa células apresentadoras de antígenos, como macrófagos e dendríticas. Essas células passam a mostrar fragmentos de proteínas tumorais aos linfócitos T, que aprendem a atacar o câncer de forma mais eficiente.
Nos testes com animais, os cientistas norte-americanos reproduziram a fórmula da vacina da Pfizer e confirmaram que ela desperta uma resposta inflamatória controlada, capaz de transformar tumores “frios”, pouco infiltrados por células imunes, em tumores “quentes”, mais sensíveis a medicamentos bloqueadores de PD-1 e PD-L1.
“A imunoterapia expõe o tumor — ela tira o disfarce das células cancerígenas. Quando a vacina de mRNA aumenta o PD-L1, ela, na verdade, cria um alvo mais assertivo. É como se ajudasse o sistema imunológico a identificar melhor as células que precisam ser desmascaradas”, afirma Stephen Stefani.
Nos humanos, o mesmo efeito foi confirmado. Em 2.300 biópsias de câncer de pulmão, pacientes vacinados nos 100 dias anteriores à coleta mostraram 24% mais PD-L1 e foram 29% mais propensos a atingir o nível necessário para receber imunoterapia sem quimioterapia.
“O estudo também mostra que existe um momento ideal para vacinar”, acrescenta Stephen Stefani. “Quanto mais recente e robusta a imunidade, melhor a resposta ao tratamento oncológico subsequente.”
Os autores da pesquisa destacam que a descoberta não significa que vacinas contra a Covid-19 tratem o câncer, mas que a tecnologia de mRNA pode funcionar como um reforço imunológico para terapias já existentes, principalmente em tumores que não costumam responder bem.
“Esse trabalho abre uma nova avenida para a oncologia de precisão”, afirma Stephen Stefani. “Talvez, no futuro, protocolos combinem vacinas de mRNA não apenas contra o vírus, mas desenhadas para reprogramar o sistema imune em benefício do tratamento do câncer.”
