Na quarta-feira (21/05), especialistas em infectologia explicaram por que o atual surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda não apresenta potencial para se transformar em uma pandemia global, apesar do alerta máximo emitido pela Organização Mundial da Saúde. Autoridades sanitárias destacaram que a forma de transmissão do vírus dificulta uma propagação internacional em larga escala. As informações são do O Globo.
A OMS classificou o cenário como emergência de saúde pública de importância internacional após aumento de casos e mortes na África Central. Até a última atualização, autoridades contabilizavam quase 600 casos suspeitos e 139 mortes relacionadas ao surto.


Forma de transmissão limita avanço internacional
Diferentemente de vírus respiratórios como Covid-19 e Influenza, o Ebola não se espalha pelo ar. A transmissão ocorre principalmente por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas.
Especialistas afirmaram que a necessidade de contato próximo reduz significativamente a capacidade de disseminação em comparação com doenças respiratórias. Segundo a OMS, práticas inseguras em serviços de saúde e durante sepultamentos aumentam o risco de contágio nas regiões afetadas.
Leonardo Weissmann, infectologista do Hospital Regional Jorge Rossmann, afirmou: “A forma de contágio limita significativamente sua capacidade de disseminação em comparação com vírus respiratórios, como influenza ou SARS-CoV-2, que causa a Covid-19”.
Sintomas graves facilitam identificação dos pacientes
A infectologista Rosana Richtmann explicou que pessoas infectadas passam a transmitir o vírus apenas após o surgimento dos sintomas. Segundo a especialista, o quadro clínico costuma evoluir com gravidade, o que dificulta deslocamentos prolongados dos pacientes.
Rosana destacou que “dificilmente a pessoa vai ter condições de viajar”, fator que favorece identificação mais ágil e isolamento dos casos suspeitos.
Autoridades já conhecem estratégias de controle
A OMS informou que medidas utilizadas em surtos anteriores continuam eficazes no combate ao Ebola. Vigilância laboratorial, identificação de contatos, quarentena e procedimentos seguros durante sepultamentos aparecem entre as principais estratégias adotadas pelas autoridades sanitárias.
Lucille Blumberg, professora da Universidade de Pretoria e integrante do Comitê de Emergência da OMS, declarou: “Nosso papel é fornecer recomendações temporárias adicionais aos Estados-membros. Há a necessidade de pesquisa e desenvolvimento, de manter a vigilância laboratorial, quarentena, identificação de contatos, enterros seguros, a resposta habitual a surtos de Ebola.”
Leonardo Weissmann também ressaltou a experiência acumulada pelas autoridades sanitárias africanas. “A experiência acumulada com surtos anteriores demonstra que medidas de saúde pública bem executadas são capazes de interromper a transmissão e evitar a disseminação internacional da doença.”
Vacinas e tratamentos seguem em análise
Apesar da ausência de imunizantes específicos para a variante Bundibugyo do Ebola, responsável pelo surto atual, a OMS informou que avalia possíveis vacinas e tratamentos disponíveis.
Tedros Adhanom Ghebreyesus afirmou que a organização analisa “quais vacinas ou tratamentos candidatos estão disponíveis e se algum deles poderia ser usado neste surto”.
Uma das alternativas avaliadas envolve a vacina Ervebo, desenvolvida inicialmente para a variante Zaire do vírus. Estudos em animais indicaram possibilidade de proteção parcial contra a cepa atual.
Outras vacinas específicas continuam em desenvolvimento e ainda dependem de novos testes clínicos.
OMS mantém foco em ações regionais
Especialistas apontaram que as recomendações da OMS permanecem concentradas nas áreas afetadas e em países vizinhos da República Democrática do Congo.
André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas, afirmou: “As recomendações da OMS estão direcionadas às províncias e aos países que fazem fronteira com a região do surto. O que chama a atenção nesse momento é o contexto social da região, que dificulta o acesso de autoridades sanitárias para fazer diagnóstico e contenção do surto, e os casos identificados em outras províncias da RDC e de viajantes na Uganda que retornaram da RDC. Mas são questões mais regionais, e ainda não para países mais distantes.”
Especialistas destacaram que conflitos armados, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso às regiões atingidas seguem entre os principais desafios para contenção do vírus.
Mesmo com expectativa de novos casos e mortes nos próximos dias, autoridades internacionais reforçaram que o cenário atual apresenta risco global considerado baixo pela OMS.
