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Vorcaro financiou rede de prostituição e recrutou refugiadas para festas

Vorcaro financiou rede de prostituição e recrutou refugiadas para festas

O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, é alvo de uma reportagem que aponta seu suposto envolvimento no financiamento de uma rede de contratação de mulheres para festas privadas no Brasil e em outros países. Segundo investigação publicada pelo UOL, mensagens extraídas do celular do empresário indicariam gastos de pelo menos R$ 4,3 milhões em uma estrutura que reunia uma agência de modelos, intermediários e mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas ucranianas.

As conversas, referentes ao período entre 2023 e 2025, sugerem que Vorcaro participava de decisões sobre seleção de mulheres, pagamentos e permanência das contratadas no grupo. Os registros mencionam participantes de diferentes nacionalidades e eventos em cidades como São Paulo, Londres, Paris, Roma e Dubai.

Polícia Federal investiga recrutamento de estrangeiras

A Polícia Federal abriu um inquérito em maio para apurar possíveis irregularidades envolvendo a contratação de mulheres estrangeiras. Entre os nomes citados na investigação estão Leonardo Serrano, proprietário de uma empresa de eventos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo que, segundo a reportagem, recebia R$ 120 mil mensais de Vorcaro. Os dois não responderam aos contatos feitos pelo veículo.

No Brasil, a prostituição exercida voluntariamente por adultos não é crime. A legislação, porém, prevê punições para condutas como exploração sexual, favorecimento da prostituição de terceiros e tráfico de pessoas. As autoridades procuram esclarecer se houve violência, ameaças, coação ou outras formas de exploração das mulheres mencionadas nas conversas.

Refugiadas ucranianas aparecem nas mensagens

Um dos episódios relatados envolve uma jovem ucraniana de 19 anos que chegou ao Brasil em outubro de 2023 para participar de uma festa de Halloween organizada pelo grupo. Conforme as mensagens, ela permaneceu no país após o evento, embora houvesse discussões sobre interromper o custeio de passagens e hospedagem para estrangeiras que decidissem ficar.

Em novembro daquele ano, Diogo Batista avisou Vorcaro que havia três refugiadas ucranianas no Brasil. “Tem 3 refugiadas aqui? Ucranianas”, escreveu. O empresário respondeu: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. Posteriormente, o promotor encaminhou os dados do passaporte de uma das jovens para organizar uma viagem ao Rio de Janeiro.

Em outra conversa, Diogo explicou que a jovem não poderia voltar à Ucrânia porque seus pais consideravam perigosa a situação no país. “Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos”, sugeriu.

Em dezembro, ao ser questionado sobre quantas estrangeiras continuavam no Brasil, o promotor informou que apenas uma havia permanecido. Segundo ele, a jovem não tinha para onde ir porque sua cidade estava sendo bombardeada.

As mensagens também indicam que a refugiada havia passado 14 horas em um ônibus para sair da Ucrânia e cogitava buscar abrigo na Itália. “Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália”, escreveu Diogo, acrescentando: “Às vezes tomarei decisões por nós? E ela ainda pode entrar pra nossa agência! Gata e novinha!”.

Em janeiro de 2024, o promotor voltou a sugerir a criação de uma agência para formalizar a contratação das mulheres e a locação de um imóvel para hospedá-las. Dois meses depois, a jovem teria participado de um jantar organizado por Vorcaro no Pappa Bar, nos Jardins, em São Paulo.

No mês seguinte, o empresário discutiu a possibilidade de dispensar mulheres russas e ucranianas. “Ucrania e Russia vamos mandar embora”, escreveu. Diogo lembrou que o conflito armado continuava. Vorcaro respondeu que faria uma nova seleção para decidir quem permaneceria no grupo.

Negociação envolvendo agência de modelos

A reportagem também descreve tratativas para a aquisição de metade da Allure Eventos, agência de modelos pertencente ao empresário Felipe Nisti Cataldo. Em dezembro de 2023, Vorcaro recebeu um contrato que previa o pagamento de R$ 1,5 milhão pela participação na empresa.

No mês seguinte, Diogo informou que o documento havia sido assinado. “Assim estamos blindados!”, escreveu. As conversas mencionam três parcelas de R$ 500 mil, previstas entre janeiro e maio de 2024. Um comprovante localizado no celular do banqueiro indicaria que a última transferência foi feita por Pix, por meio da Super Empreendimentos, empresa utilizada por Vorcaro.

Procurado pelo UOL, Felipe Nisti confirmou que o empresário demonstrou interesse no negócio, mas negou que a negociação tivesse sido concluída. Sobre a transferência de R$ 500 mil, afirmou que precisaria verificar a origem e a justificativa do pagamento.

A possibilidade de utilizar uma agência para contratar mulheres já havia sido discutida em outubro de 2023. Na ocasião, Tiago Polo, empresário que trabalhava com Diogo, apresentou a ideia de organizar as contratações por meio de uma estrutura empresarial. Também foi mencionada a possibilidade de comprar a Ford Models por aproximadamente US$ 6,7 milhões.

Em janeiro de 2024, Vorcaro pediu que Tiago procurasse mulheres no Sul do Brasil para cadastrá-las. No mesmo período, Diogo solicitou R$ 500 mil para alugar uma casa destinada às modelos. “E funcionário só mulher”, determinou o empresário.

Mensagens indicam controle sobre contratações

Os registros analisados pela reportagem sugerem que Vorcaro participava das decisões sobre a composição dos grupos de mulheres presentes nos eventos. Em maio de 2024, Diogo propôs separar as participantes em duas equipes, chamadas de “Time Famiglia A” e “B”. A primeira seria destinada ao círculo mais próximo do empresário, enquanto a segunda atenderia eventos maiores.

Nas conversas, os envolvidos utilizaram termos como “escravas”, “kengas” e “creche” para se referir às mulheres. Algumas também recebiam apelidos relacionados à idade. Em uma mensagem, Diogo escreveu: “Escravinha doutrinada”. Em outra, afirmou: “Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí”.

A utilização dessas expressões não comprova, isoladamente, que as mulheres tenham sido submetidas a condições análogas à escravidão. A apuração depende de outros elementos que permitam esclarecer as circunstâncias das contratações e as condições em que as participantes atuavam.

As conversas também apontam que Diogo aguardava autorização de Vorcaro para liberar determinados pagamentos. Depois de uma festa de Halloween, o promotor afirmou que não pretendia pagar às mulheres sem receber uma ordem. Em abril de 2024, voltou a cobrar uma decisão: “Chefe precisa autorizar”.

O empresário também teria determinado a dispensa de algumas participantes após considerar que os encontros estavam gerando comentários. “Vamos mandar embora. Depois trazemos quem quisermos. Ficou muito burburinho. Vamos zerar e recomeçar”, escreveu.

Em janeiro de 2024, Vorcaro solicitou uma nova seleção de mulheres no Sul do país e, no mês seguinte, pediu cerca de 20 candidatas. Ele também orientou que as contratações fossem formalizadas pela Allure e que fossem providenciados vistos. “Vamos tirar visto Famiglia”, escreveu. “Contratar todas Allure. E marca entrevista.”

Em março, Diogo afirmou estar preparando as mulheres escolhidas para integrar o grupo mais próximo do empresário, incluindo a jovem ucraniana. “Vc tem uma Famiglia obediente”, escreveu.

Festa de aniversário de jovem de 19 anos

Outro episódio descrito na investigação envolve a organização de uma comemoração para uma jovem que completaria 19 anos em fevereiro de 2024. Nas mensagens, ela era chamada de “Mucilon”, em referência a uma marca de cereal infantil.

Em janeiro, Diogo informou que pretendia mantê-la no grupo. Vorcaro respondeu: “Ela vai ter que entrar pro crime pra ficar”. Pouco antes do aniversário, demonstrou preocupação com a idade da jovem. “A mucilon mto nova. Tô preocupado”, escreveu. Diogo respondeu: “Antes contigo do que com outros otários. Vc cuida. Famiglia”.

As conversas seguintes tratam dos preparativos para a comemoração, incluindo bolo, decoração e presentes. O empresário também teria prometido um iPhone à jovem. Depois do evento, Diogo pediu o reembolso de despesas, entre elas um presente registrado nas mensagens no valor de R$ 50 mil.

O material divulgado pela reportagem não esclarece a natureza de todas as relações entre a jovem e os demais envolvidos.

Eventos internacionais e contratação de mulheres

A organização de festas no exterior era atribuída a Leonardo Serrano, proprietário da SL Consulting, empresa sediada na Flórida, nos Estados Unidos. Segundo a reportagem, ele coordenava intermediários locais, reservas de hotéis, passagens aéreas e recursos destinados às mulheres contratadas.

Em uma festa de Halloween realizada em 2023 na boate Madame Satã, em São Paulo, Serrano contabilizou 74 mulheres. Diogo teria levado outras 40, acomodadas em 21 quartos do hotel Rosewood. Em uma conversa posterior, Serrano mencionou mais de 120 mulheres ligadas ao promotor.

Durante a preparação de uma festa na França, em junho de 2024, Serrano sugeriu disponibilizar 3 mil euros para compras a cada uma das oito mulheres convidadas. Vorcaro teria autorizado o aumento do valor para 4 mil euros por participante.

Em Londres, em abril de 2024, mensagens apontam que o empresário pediu que mulheres fossem encaminhadas ao seu quarto de hotel durante um evento que contou com a presença de autoridades brasileiras. Segundo os registros, 99 mulheres foram contratadas para trabalhar na ocasião.

Outro encontro na capital britânica, em março daquele ano, teria envolvido entre 20 e 30 mulheres em uma festa no clube privado Annabel’s. Uma das mensagens de Serrano indicava que os celulares das participantes seriam recolhidos.

Em outubro de 2024, a organização de um evento em Roma envolveu grupos de brasileiras e estrangeiras. Vorcaro teria determinado que nenhum homem participasse da festa. Parte das mulheres seguiu posteriormente para Dubai.

As mensagens também registram divergências entre os intermediários sobre a responsabilidade pelo recrutamento das estrangeiras. Em fevereiro de 2024, Serrano procurou se distanciar das atividades de Diogo e escreveu: “Eu tô traficando é nada! Isso é trabalho do doidinho seu lá”.

Documentos registram pagamentos milionários

A reportagem identificou 21 faturas emitidas pela SL Consulting entre abril de 2024 e março de 2025, totalizando aproximadamente US$ 70 milhões. Os documentos foram destinados à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte, e descreviam despesas relacionadas a eventos, hospedagem, hospitalidade e fretamentos.

As faturas eram encaminhadas por Vorcaro ao departamento financeiro do Banco Master. O montante corresponde ao valor dos documentos localizados pela reportagem e não significa que toda a quantia tenha sido destinada à contratação de mulheres ou efetivamente paga.

No Brasil, despesas relacionadas às participantes também eram encaminhadas à Prime You, empresa citada nas conversas. Em novembro de 2023, Serrano informou que passagens aéreas e hospedagens seriam faturadas à companhia.

Diogo também recebia recursos por meio de Serrano e por transferências diretas. Em setembro e outubro de 2024, foram discutidas faturas de R$ 350 mil e R$ 260 mil relacionadas às atividades do promotor.

Em janeiro de 2025, Vorcaro determinou a interrupção dos repasses. “Não é pra ter pagamento nenhum seu de qualquer coisa de Diogo a partir deste ano”, escreveu a Serrano.

Investigação busca esclarecer possíveis crimes

A Polícia Federal apura a atuação dos intermediários, as condições de recrutamento das mulheres estrangeiras e a eventual ocorrência de exploração sexual ou tráfico de pessoas.

As mensagens descritas na reportagem indicariam a participação de Vorcaro em decisões financeiras e operacionais, incluindo seleção, contratação, hospedagem e deslocamento das mulheres. Esses registros, por si só, não determinam a responsabilidade criminal dos envolvidos, que depende da análise das provas e da conclusão das investigações.

Leonardo Serrano e Diogo Batista, apontados na reportagem como figuras centrais da estrutura investigada, não responderam aos pedidos de manifestação encaminhados pelo UOL.

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