7 décadas de vida, Corinthiano apaixonado, tema de escola de samba e podcaster. Descendente de italianos, Washington Olivetto nasceu na Lapa, São Paulo. Cursou publicidade pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), mas não concluiu a graduação. No dia 13 de outubro de 2024, faleceu após falência múltipla dos órgãos.
Um craque da arte publicitária que se foi sem deixar vestígios.
Aos 18 anos, começou sua carreira como redator em uma agência. Foi assim, ele estava procurando emprego na cidade. O pneu do carro dele furou na frente de uma agência, a Deca. Ele, prontamente, desceu do carro, entrou na agência e pediu emprego. 3 meses depois, produziu o seu primeiro comercial… que ganhou o Leão de Bronze em Cannes.
Olivetto tinha um talento nato para encantar, fazer rir e chorar com suas peças. Logo, alunos de publicidade, profissionais renomados e o mundo do cinema passou a admirar o garoto Washington, que apesar de célebre, se portava como um homem comum. Sem firulas. Ah, e para quem quer saber sobre o ídolo do ídolo, Olivetto era apaixonado por Woody Allen.
Na verdade, foi o diretor quem inspirou Olivetto a criar um dos seus maiores personagens: O garoto Bombril.
Além de sua rica contribuição à publicidade brasileira, Washington Olivetto foi um dos fundadores da Democracia Corintiana. Movimento que, á época da Ditadura, foi responsável por uma luta ferrenha contra os mandos e desmandos do exército brasileiro.
Vamos embarcar nessa história?
Meu primeiro sutiã
Houve uma época em que elas queimaram o sutiã como forma de protesto. Mas, não há quem negue que eles possuem um papel importante na vida de uma mulher. A propaganda de 1987, para a Valisére, mostra uma jovem que está no momento de passagem da infância para a adolescência e todos os medos e mitos que essa fase da vida inclui. Um olhar doce sobre as mudanças da vida.
O comercial “O meu primeiro sutiã” foi um marco da publicidade brasileira e também a estreia da atriz Patrícia Lucchesi, que ganharia mais tarde reconhecimento por sua atuação em “O Livro Mágico”.
Esse comercial entrou para a história, sendo listado no livro Os 100 Melhores Comerciais de Todos os Tempos devido à sua delicadeza e impacto emocional.
Além disso, ele serviu de inspiração para um curta-metragem lançado em 2019, que aborda a experiência de uma menina trans recebendo seu primeiro sutiã, trazendo uma nova camada de significado ao tema de descoberta e aceitação.
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Garoto Bombril
Quando ele estreou a propaganda ainda tinha cabelo. Carlos Moreno passou anos à frente das propagandas para vender Bombril. Um produto simples, totalmente despercebido, mas que, com o talento de Olivetto, se tornou o principal produto da marca. Tanto que, na verdade, o nome oficial é esponja de aço. Mas, o brasileiro conhece como BomBril. Se usar outra marca, ainda assim, vai ser BomBril!
O primeiro comercial foi ao ar em 1978. Em 1994 a campanha entrou para o Guiness Book, como a série de publicidade mais longa do mundo. O sucesso foi tanto que Carlos Moreno, ator que interpretava o funcionário da empresa, se tornou porta-voz oficial.
DDD Embratel
Colocar 3 garotos vestidos com roupinhas coladas e cantando uma música chiclete pode não ser nada, né? Mas, depende de como você faz isso. Mais uma vez, Olivetto transforma um produto sem apelo (ligar via DDD) em algo marcante e inesquecível.
Os meninos ficaram tão famosos em 1999 que se tornaram atração por onde passavam. Anos depois, voltaram a estrelar o mesmo comercial.
Casais Unibanco
A campanha “Casais Unibanco”, criada por Washington Olivetto e sua agência W/Brasil, foi uma das mais icônicas e duradouras da publicidade brasileira. Lançada em 1993, a campanha usou o conceito de casais para humanizar a comunicação do Unibanco, criando uma conexão emocional com o público, especialmente a classe média.
A ideia era retratar situações cotidianas e dinâmicas de relacionamento de forma leve e bem-humorada, o que fez com que o público se identificasse facilmente. O primeiro casal foi interpretado por Felipe Pinheiro e Katia Bronstein, mas, após a morte de Felipe, a W/Brasil realizou um concurso para selecionar o novo casal, resultando na escolha de Cláudio Gonzaga e Drica Moraes.
A campanha evoluiu ao longo dos anos, incorporando novos atores e formatos. Em 2001, foi reformulada com Luiz Fernando Guimarães e Débora Bloch, onde o foco passou a ser o humor, e não apenas o relacionamento típico de um casal. O ator Miguel Falabella também participou da campanha posteriormente, acrescentando sua marca de humor.
Um destaque da campanha foi a capacidade de manter-se relevante por mais de uma década, o que é raro em publicidade. A longevidade da campanha e sua conexão emocional com o público reforçaram a marca Unibanco no imaginário popular.
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Itaú: Agência que vira casa
Uma realidade que permanece é: ir ao banco passar horas em filas de caixa. Para amenizar o cansaço de passar por um dos perrengues mais chatos do Brasil, Washington Olivetto transformou a ida ao banco em diversão! Isso, há mais de 25 anos e antes do boom da tecnologia.
No comercial, uma tradicional agência bancária do Itaú é convertida em uma casa, simbolizando o conceito de que os serviços do banco estão cada vez mais disponíveis para o público geral. A transformação da agência em lar reflete a ideia de como o conforto e a conveniência dos clientes passaram a ser a prioridade.
A campanha foi bem recebida por seu tom emocional e por refletir uma mudança significativa no comportamento dos consumidores em relação ao uso de serviços bancários, reforçando a modernidade e inovação do Itaú naquele momento.
Filme Hitler
O comercial “Hitler”, criado para a Folha de S. Paulo em 1988 pela W/Brasil, é um dos maiores marcos da publicidade brasileira, e seu tema continua relevante até hoje.
A ideia do comercial é simples, mas impactante: ele começa com uma imagem granulada de um ponto que gradualmente revela a figura de Adolf Hitler, enquanto uma voz narra algumas de suas realizações, como a redução do desemprego e seu amor pela música. O impacto surge no final, quando o comercial revela a figura completa de Hitler, acompanhada da frase: “É possível contar mentiras dizendo só verdades”
O comercial foi amplamente premiado, incluindo o prestigiado Leão de Ouro em Cannes em 1989, e entrou na lista dos 40 melhores filmes publicitários do século segundo a revista inglesa “Shots”. O trabalho é um exemplo de uma atitude política corajosa, o que contribuiu
para sua repercussão global.
Hoje, mais de 30 anos após sua criação, “Hitler” permanece atual. Em tempos de fake news e manipulação de informações, o tema de como é possível enganar as pessoas apenas contando fatos isolados é mais pertinente do que nunca.
Washington Olivetto deixa um legado incomparável na publicidade brasileira e mundial, com uma carreira marcada pela inovação, ousadia e capacidade de transformar o simples em algo extraordinário. Seus comerciais são mais do que peças publicitárias; são obras de arte que capturam a essência de uma época e ainda ressoam com temas contemporâneos.
Das mensagens emotivas de “O Meu Primeiro Sutiã” à relevância atemporal de “Hitler”, Olivetto soube como poucos usar a publicidade para emocionar, educar e provocar reflexão.
Seu olhar criativo, somado ao talento para entender o comportamento humano e as nuances da comunicação, marcou a história de marcas, produtos e da própria publicidade.
Seu falecimento em 13 de outubro de 2024 encerra um ciclo brilhante, mas suas criações continuarão a inspirar gerações de publicitários e espectadores.
Cada uma de suas campanhas carregava um pedacinho de sua genialidade, tornando-o não só um mestre da propaganda, mas também um contador de histórias que soube, com sensibilidade e humor, falar diretamente aos corações e mentes de milhões.
