Um estudo incomum está intrigando médicos e neurologistas nos Estados Unidos. Ele envolve uma paciente com síndrome de Down, na faixa dos 60 anos, cujo cérebro apresentou todos os sinais típicos da doença de Alzheimer, mas sem qualquer sintoma de demência ao longo da vida. O caso foi examinado por meio do Alzheimer Biomarker Consortium–Down Syndrome, um projeto criado para investigar a relação entre essas duas condições médicas.
Antes de sua morte, a paciente participou do estudo e doou seu cérebro para pesquisa. Embora exames pós-morte tenham mostrado marcadores significativos da doença de Alzheimer, avaliações clínicas realizadas durante anos revelaram que ela manteve uma estabilidade cognitiva notável. Ela continuou a realizar atividades cotidianas, como cozinhar, fazer compras e socializar, sem alterações perceptíveis em seu comportamento.


“Antes de falecer, todas as avaliações clínicas em nossos anos de estudo indicaram que ela estava cognitivamente estável, e é por isso que este caso é tão fascinante”, afirmou Jr-Jiun Liou, pesquisador da Universidade de Pittsburgh, responsável pelo estudo publicado pela Alzheimer’s Association no final de janeiro. Liou sugere que o nível educacional elevado ou fatores genéticos podem ter contribuído para essa estabilidade cognitiva, apesar dos sinais claros de Alzheimer no cérebro da paciente.
Pesquisadores acreditam que este caso pode trazer dados valiosos sobre como a genética e o estilo de vida podem permitir que algumas pessoas mantenham a mente afiada, mesmo diante da degeneração cerebral. Essa descoberta pode ter implicações para o público em geral, sugerindo estratégias que ajudem a prevenir ou retardar o progresso de doenças neurodegenerativas.
“Se pudermos identificar os fundamentos genéticos ou fatores de estilo de vida que permitiram que seu cérebro funcionasse bem apesar da patologia, podemos descobrir estratégias que podem beneficiar outras pessoas”, disse Elizabeth Head, neurocientista da Universidade da Califórnia, Irvine, coautora do estudo.
Pessoas com síndrome de Down possuem um risco muito maior de desenvolver demência relacionada ao Alzheimer à medida que envelhecem, com estimativas indicando que esse risco é de três a cinco vezes maior do que na população geral. Embora os cientistas ainda não tenham identificado a causa exata, acredita-se que a cópia extra do cromossomo 21 impulsione a superprodução de uma proteína chamada precursora amiloide, o que contribui para o acúmulo de placas beta amiloides no cérebro, característica clássica do Alzheimer.
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Embora a paciente estudada tivesse um QI abaixo da média, ela recebeu uma educação personalizada voltada para pessoas com deficiência intelectual. Os pesquisadores observaram que indivíduos com maior nível educacional tendem a apresentar menor comprometimento cognitivo, possivelmente devido a escolhas de estilo de vida mais saudáveis. Além disso, o estudo identificou possíveis fatores fisiológicos que podem ter oferecido ao seu cérebro alguma resistência à degeneração do Alzheimer, como tecido cerebral extra ou genes que ajudam a lidar com o acúmulo de proteínas danificadas.
Os cientistas também estão investigando a condição genética da paciente para entender como a síndrome de Down pode ter influenciado sua resistência ao Alzheimer, um aspecto que pode fornecer novas pistas para futuras pesquisas sobre o papel dos cromossomos e os efeitos do excesso de material genético no cérebro.
