No dia 22 de junho, há vinte anos, teve início uma série de assassinatos que aterrorizou a pacata cidade de Kičevo, na Macedônia. Entre 2005 e 2008, pelo menos três mulheres que trabalhavam como faxineiras e tinham entre 50 e 60 anos foram brutalmente assassinadas, causando pânico na região.
Os crimes chamaram atenção pela semelhança: todas as vítimas foram violentadas sexualmente, estranguladas com cabos telefônicos e tiveram os corpos abandonados, sem roupas, dentro de sacos plásticos, conforme publicou o jornal britânico The Guardian.

Detalhes demais chamaram atenção da polícia
Em meio à comoção, quem ganhou destaque na cobertura do caso foi Vlado Taneski, jornalista de 56 anos com uma trajetória discreta cobrindo temas locais pouco relevantes. Suas reportagens, no entanto, começaram a se destacar pela quantidade de detalhes sobre os crimes, o que chamou a atenção tanto do público quanto da polícia.
No início de 2008, as autoridades começaram a desconfiar do jornalista, já que ele mencionava em seus textos informações que apenas a investigação policial ou o autor dos crimes poderiam saber, como o tipo exato do fio usado nos estrangulamentos e o estado em que os corpos eram encontrados. “Lemos suas reportagens e ficamos desconfiados. Ele sabia demais”, disse Ivo Kotevski, porta-voz da polícia na época, ao New York Times.
A suspeita aumentou quando Taneski publicou que todas as vítimas tinham sido envolvidas em plástico antes mesmo dessa informação ser divulgada oficialmente. Além disso, o jornalista costumava telefonar para a polícia logo após cada homicídio, como se tivesse acesso exclusivo aos fatos. De fato, tinha. Mas a fonte era ele próprio.
As reportagens do jornalista, publicadas no Utrinski Vesnik, acabaram servindo como uma espécie de confissão. De profissional da imprensa, Taneski passou a ser o principal suspeito. Em junho de 2008, exames de DNA confirmaram a ligação dele com pelo menos um dos crimes: seu material genético foi encontrado em uma das cenas.
Durante buscas em sua casa e em sua residência de veraneio, a polícia apreendeu fios telefônicos, material pornográfico e objetos pessoais pertencentes às vítimas.
Vlado Taneski foi detido no dia 22 de junho de 2008, acusado pelos assassinatos de Zivana Temelkoska, Ljubica Licoska e Mitra Simjanoska. As autoridades ainda investigavam o possível envolvimento dele no desaparecimento de uma mulher de 78 anos ocorrido em 2003.
Na manhã seguinte, 23 de junho, o jornalista foi encontrado morto na prisão de Tetovo, onde dividia cela com outros dois detentos. Seu corpo foi achado com a cabeça submersa em um balde d’água. A polícia tratou o caso como suicídio e informou que Taneski teria deixado um bilhete em que negava os crimes.
“Eu jamais acreditaria que ele fosse capaz de fazer algo assim”, disse Ljupco Popovski, editor do Utrinski Vesnik à época, à agência Associated Press, descrevendo Taneski como alguém “bastante quieto e reservado”.
Sua ex-esposa, em entrevista ao Canal 5, uma emissora local, descreveu o relacionamento dos dois como harmonioso: “Ele sempre foi quieto e gentil. A única vez que o vi ficar agressivo foi quando morávamos com os pais dele.”
O psiquiatra Antoni Novotni, chefe de uma clínica em Skopje, afirmou ao Guardian que Taneski pode ter agido de forma inconsciente ao revelar detalhes dos crimes em suas matérias. “Ele pode ter desejado ser pego ao deixar escapar o que disse nas suas matérias”, disse Novotni.
