No dia 5 de julho, o governo dos Estados Unidos anunciou medidas para combater uma ameaça inusitada: uma mosca carnívora capaz de atacar animais e, em casos mais raros, até humanos. A estratégia consiste em criar milhões de moscas machos em laboratório, esterilizá-las com radiação quando atingirem a idade adulta e depois liberá-las por aviões sobre regiões do México e do sul do Texas.
A iniciativa busca reduzir drasticamente a população da espécie, já que as fêmeas da Cochliomyia hominivorax, conhecida como mosca varejeira do novo mundo, se reproduzem apenas uma vez e morrem pouco tempo depois. Quando acasalam com os machos estéreis liberados no ambiente, acabam depositando ovos que não se desenvolvem, reduzindo gradualmente o número desses insetos.




Uma ameaça à pecuária e à saúde
Edwin Burgess, professor assistente da Universidade da Flórida e especialista em parasitas de animais, explicou a importância dessa técnica. “É uma tecnologia excepcionalmente boa”, disse Burgess, “é um dos maiores exemplos de como traduzir ciência para resolver um grande problema”.
As moscas fêmeas costumam colocar seus ovos em feridas abertas de animais de sangue quente, como bois, búfalos, cães e, em situações raras, humanos. Depois que as larvas nascem, elas se alimentam do tecido do hospedeiro, causando infecções que podem levar à morte do animal em pouco tempo. “Um bovino de 450 quilos pode morrer disso em duas semanas”, afirmou Michael Bailey, presidente eleito da Associação Americana de Medicina Veterinária.
Originalmente encontrada em países da América Central, como o Panamá, a espécie já foi considerada uma praga sazonal nos Estados Unidos. No entanto, enxames recentes migraram para o sul do Texas, próximo à fronteira mexicana, colocando em risco a indústria pecuária da região. O método de esterilização em massa já havia sido usado décadas atrás para eliminar a praga sem o uso de pesticidas, sendo considerado mais eficiente e menos agressivo ao meio ambiente.
Produção em massa de moscas estéreis
Atualmente, uma fábrica no Panamá já produz moscas estéreis e tem ajudado a controlar a espécie na América Central. Com a nova ameaça se aproximando dos Estados Unidos, o governo pretende ampliar a produção. A expectativa é que uma nova fábrica no sul do México comece a operar até julho de 2026. Além disso, um centro de distribuição no sul do Texas deve ser instalado ainda este ano para facilitar o transporte das moscas estéreis criadas no Panamá.
Hoje, a unidade panamenha consegue produzir cerca de 117 milhões de moscas por semana. Mas, diante do risco, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) quer aumentar essa capacidade para 400 milhões semanais. Para isso, planeja investir US$ 8,5 milhões (aproximadamente R$ 50 milhões) na construção do centro de distribuição no Texas e mais US$ 21 milhões (cerca de R$ 120 milhões) para transformar uma instalação no México, atualmente dedicada à criação de moscas-das-frutas estéreis, em uma fábrica específica para as moscas varejeiras.
Como medida emergencial, os Estados Unidos suspenderam temporariamente, em maio, a importação de gado vivo, cavalos e bisões pela fronteira sul, a fim de impedir a entrada de novos focos da praga. Segundo autoridades americanas, a reabertura completa do comércio só deve ocorrer por volta de setembro.
