Na última terça-feira (21), o médico e terapeuta João Borzino explicou por que comentários ofensivos tendem a permanecer na memória por muito mais tempo do que palavras de reconhecimento. De acordo com o especialista, fatores biológicos, sociais e evolutivos moldam o funcionamento cerebral e fazem com que o negativo tenha mais peso emocional do que o positivo. As informações são do O Globo.
Segundo Borzino, “estudos recentes apontam que elogios tendem a permanecer ativos na nossa memória por até um mês. Já uma ofensa pode nos acompanhar por décadas. Isso não é só psicológico, é biológico, antropológico e social. O nome disso é viés da negatividade”. Esse mecanismo, conhecido na psicologia como negativity bias, explica por que acontecimentos desfavoráveis geram respostas emocionais mais intensas do que momentos agradáveis, mesmo quando vêm das mesmas pessoas.



A origem evolutiva do foco no negativo
De acordo com o terapeuta, a explicação está na forma como a espécie humana se desenvolveu. “Do ponto de vista evolutivo, essa tendência faz sentido. Nossos antepassados precisavam estar atentos a qualquer sinal de perigo: um predador, um inimigo, um som estranho na floresta. Quem ignorava ameaças, morria. Quem prestava atenção a tudo de ruim, sobrevivia”, afirmou.
Esse funcionamento do cérebro faz com que imagens e situações negativas ativem regiões cerebrais mais profundas, intensificando a resposta emocional. “Uma crítica gera mais impacto emocional do que um elogio, mesmo que ambos venham da mesma pessoa”, observou o especialista.
Além do aspecto individual, o médico destacou que a sociedade também reflete esse comportamento. “Estudos mostram que, socialmente, uma atitude ruim se espalha até 9 vezes mais do que uma boa. Seja nas redes sociais, em rodas de conversa ou no noticiário, o que é ruim sempre chama mais atenção”, explicou.
O fascínio humano pelo negativo
Situações que envolvem tragédias, brigas ou escândalos despertam mais curiosidade do que boas notícias. Borzino exemplificou: em um engarrafamento, um acidente costuma atrair olhares, enquanto algo simples e positivo, como um animal tentando atravessar a rua, passa despercebido.
“A explicação é simples: fofocas, escândalos, brigas, acidentes e tragédias geram mais interesse do que boas notícias. Essa tendência está ligada ao nosso instinto de sobrevivência: aprender com o erro dos outros, identificar inimigos, se proteger. Hoje, isso se traduz em curtidas, comentários e compartilhamentos”, analisou o médico.
Como reduzir o impacto das ofensas
Entender esse processo é essencial para lidar melhor com críticas e comentários negativos. O especialista recomenda atitudes práticas para equilibrar a atenção emocional:
- Filtrar conteúdos excessivamente negativos e selecionar o que consome.
- Valorizar os elogios, registrando e relembrando momentos positivos.
- Refletir sobre críticas, compreendendo que muitas vezes revelam mais sobre quem as faz do que sobre quem as recebe.
- Falar sobre sentimentos para aliviar a carga emocional.
“Lembrar mais da ofensa do que do elogio não significa que você é sensível demais. Significa que você é humano. Nosso cérebro foi moldado para reagir ao que machuca, e não ao que conforta. Entender isso é o primeiro passo para não se deixar dominar por aquilo que nos fere”, concluiu Borzino.
