No dia 14 de julho, o tradicional banho de sal grosso voltou ao centro das discussões sobre práticas espirituais. Muito conhecido como uma ferramenta para espantar a inveja, o mau-olhado e outras energias ruins, o ritual nem sempre é recomendado para todos. Embora muitas pessoas recorram a ele para aliviar o cansaço e a sensação de “peso”, especialistas em religiões de matriz africana alertam que o efeito pode ser o oposto dependendo da energia espiritual de cada indivíduo.
Isso acontece porque, no Candomblé e na Umbanda, por exemplo, o uso de elementos naturais segue regras espirituais muito específicas, com tabus e restrições chamados de quizilas ou ewó. De acordo com essas tradições, cada pessoa carrega uma energia própria relacionada ao seu Orí, ao seu Orixá e ao seu Odù, energia orientada por Ọ̀rúnmìlà, divindade que define os caminhos, as sortes e os desafios de cada um.


Quem deve evitar o banho de sal grosso
Pessoas com o Odù Ọwọ́nrín, por exemplo, possuem uma ligação intensa com as águas doces e, por isso, devem manter distância do mar e de tudo que o representa, incluindo o sal grosso. O contato pode enfraquecer as defesas espirituais e causar instabilidade emocional. Situação semelhante ocorre com quem possui o Odù Ìká, cuja energia requer ainda mais cuidado no uso do sal, já que ele pode rasgar proteções sutis e abrir espaço para desequilíbrios espirituais e até doenças.
Entre os Orixás, filhos e filhas de Oxalá merecem atenção redobrada, pois o excesso de força do sal pode desestabilizar sua energia de pureza e equilíbrio. A mesma precaução deve ser tomada por pessoas ligadas a Jàgún, um Orixá jovem e guerreiro, associado também a Oxalá. Quem tem conexão com os gêmeos Ibéjì, protetores da infância e representantes da vitalidade das crianças, também deve ser orientado antes de usar o sal grosso.
Outro cuidado importante envolve o Orí de Àbìkú, ligado a espíritos de crianças que, segundo a tradição yorubá, estão presas ao ciclo de nascer e morrer cedo. Pessoas marcadas por essa energia costumam ter saúde frágil e são sensíveis a práticas espirituais fortes, necessitando de banhos específicos que fortaleçam sua presença na Terra.
Por essas razões, a crença de que o banho de sal grosso resolve qualquer problema espiritual é um grande engano. O sal é um elemento poderoso, carregado de axé, mas que também corta, podendo remover não apenas energias ruins, mas também as proteções espirituais de quem o utiliza de forma inadequada.
Além dos fatores espirituais, há ainda restrições baseadas na história familiar ou ancestral. Algumas pessoas possuem quizilas com o mar por conta de promessas, iniciações ou histórias de parentes pescadores que morreram afogados. Esses vínculos simbólicos são respeitados dentro dos terreiros de Candomblé e Umbanda, e o uso do sal grosso pode romper essas conexões de maneira prejudicial.
O excesso de banhos de sal também pode deixar a pessoa espiritualmente desguarnecida, já que elimina camadas de proteção criadas por ebós, rezas ou oferendas. Por isso, o ideal é sempre buscar orientação com alguém que conheça o assunto antes de recorrer ao ritual. Em alguns casos, o sal precisa ser combinado com folhas específicas ou acompanhado de rezas que harmonizem o Orí e evitem qualquer desequilíbrio.
