A história de Maria Middleton, jovem norte-americana que morreu aos 18 anos após enfrentar um tumor cerebral, voltou a ganhar destaque entre os fiéis católicos. Seis anos depois de sua morte, centenas de pessoas participaram de uma missa em sua homenagem, celebrada em 5 de outubro pelo arcebispo Nelson Pérez, da Filadélfia, no Santuário Nacional de Nossa Senhora de Czestochowa, na Pensilvânia. A Igreja também iniciou consultas preliminares após receber um pedido para avaliar a possibilidade de abertura de sua causa de canonização.
A relação de Maria com a fé começou ainda na infância. Quando tinha apenas 3 anos, passou a frequentar semanalmente o santuário com a mãe, Susan Middleton, para participar da adoração eucarística. Nesse período, aprendeu a rezar o terço e a Coroa da Divina Misericórdia, além de desenvolver uma forte devoção à Virgem Maria, a quem havia sido consagrada durante o batismo.
Fé e personalidade marcaram a trajetória de Maria
Um episódio da infância ajuda a ilustrar a maneira como a família cultivava a espiritualidade da menina. Aos 5 anos, Maria decidiu preparar um cartão para a mãe, poucos dias antes do Dia das Mães. A mensagem tinha flores desenhadas e uma dedicatória que surpreendeu Susan. Na parte externa, estava escrito: “Feliz Dia das Mães”. Ao abrir o cartão, a mãe encontrou outra declaração: “Para a segunda melhor mãe do mundo”.
Susan contou o episódio em entrevista ao National Catholic Register e explicou que procurava ensinar à filha a importância da figura materna de Maria, considerada pelos católicos uma mãe espiritual perfeita, em contraste com as limitações humanas.
Durante a missa em memória da jovem, o arcebispo Nelson Pérez recordou o contato que teve com ela na pandemia de COVID-19. Na época, com as celebrações públicas suspensas, Maria escreveu ao religioso para expressar seu desejo de receber a Eucaristia. Ela considerava o sacramento uma fonte de força para enfrentar a doença. Pérez respondeu oferecendo-se para levar pessoalmente a comunhão até ela.
“Ela definitivamente viveu uma vida que exemplificou” o mandamento de Cristo de amar “a Deus com todo o seu coração”, disse Pérez. “É por isso que estamos aqui hoje.”
Desde a morte de Maria, em 8 de outubro de 2020, seus pais, Brian e Susan Middleton, recebem relatos frequentes de pessoas que afirmam ter sido tocadas pela trajetória da filha. Entre os testemunhos estão histórias de fiéis que voltaram à Igreja, retomaram a participação nos sacramentos ou fortaleceram a própria espiritualidade depois de conhecer sua história.
Em junho, o arcebispo Pérez recebeu um pedido formal para que fosse considerada a abertura do processo de canonização da jovem, dando início à etapa inicial de consultas dentro da Igreja Católica.
O padre Griffen Schlaepfer, de 28 anos, conheceu a história de Maria depois de encontrar um cartão religioso com uma de suas frases em sua paróquia. A mensagem dizia: “Você não precisa ser esquisito para ser santo”.
O pensamento chamou a atenção do sacerdote, que passou a conhecer melhor a trajetória da adolescente. Para ele, o exemplo de Maria demonstra que a santidade não exige o afastamento de uma vida comum ou a renúncia à alegria.
“Você não precisa ser sem alegria para ser santo”, disse Schlaepfer. “Você pode ter uma vida plena e atraente e também viver de acordo com a vontade de Deus completamente.”
Maria nasceu em 10 de setembro de 2002, quando sua mãe tinha 44 anos. Ela foi considerada uma surpresa na vida de Brian e Susan, que haviam formado uma nova família depois de encerrarem seus casamentos anteriores. Apesar da forte ligação religiosa, a jovem também tinha interesses comuns à sua geração.
Gostava de música, dança irlandesa e esportes, apresentava bom desempenho escolar e chegou à presidência da turma. Também integrava a Sociedade Nacional de Honra e participava de diferentes atividades na comunidade religiosa.
A amiga Maggie McArdle, que conheceu Maria ainda na primeira série, lembra de uma menina bem-humorada, espontânea e carinhosa. As duas costumavam gravar vídeos musicais divertidos com outras amigas e criar carteiras utilizando fita adesiva.
“Eu me lembro de gargalhadas, rindo até nossas barrigas doerem”, disse McArdle. “Gosto de falar com ela hoje e ler nossas mensagens antigas. Elas são muito especiais para mim.”
Kim O’Grady, irmã de Maria, também acompanhou seu crescimento. Com 15 anos de diferença entre elas, Kim viu a jovem passar pela adolescência mantendo gostos semelhantes aos de outras meninas da idade, incluindo o interesse por Taylor Swift, Jonas Brothers e Shawn Mendes. Maria também utilizava redes sociais como Snapchat e Instagram.
Para a irmã, entretanto, a jovem demonstrava uma clareza incomum sobre suas convicções e prioridades. “Ela sabia qual era sua Estrela do Norte”, disse O’Grady. Ela explicou que Maria tinha consciência de sua identidade e encontrava na relação com Deus uma referência para suas escolhas.
Essa preocupação com o desenvolvimento pessoal também aparecia nos registros que Maria fazia em seus diários. Ao rever gravações antigas da infância, refletiu sobre as mudanças em seu comportamento e sobre a influência das redes sociais na maneira como enxergava a si mesma.
“Acho que ver os vídeos de mim me fez perceber que não há razão para eu não ser como eu era quando era pequena”, ela escreveu em seu diário. “Mesmo que isso signifique cortar um pouco as redes sociais ou fazer mais coisas por diversão e apenas aproveitar as pequenas coisas, é isso que vou me treinar para fazer.”
A professora Stephanie Weaver, responsável por ensinar doutrina social católica e teologia moral a Maria na Villa Joseph Marie High School, também presenciou o envolvimento da estudante com ações sociais. Ainda no primeiro ano do ensino médio, a jovem organizou uma campanha de arrecadação de casacos para a Mother of Mercy House, em Kensington. Além disso, assumiu a copresidência do evento beneficente da escola conhecido como Mini-THON, uma maratona de dança destinada a arrecadar recursos para crianças com câncer. Atualmente, a iniciativa recebe o nome de Hope-A-Thon, em homenagem à adolescente.
“Havia algo tão diferente em Maria porque ela não apenas falava”, disse Weaver. Em vez disso, ela “praticava o que pregava”.
O pai da jovem também ressaltou que suas atitudes religiosas não surgiram como consequência do diagnóstico. Para Brian, a espiritualidade da filha já fazia parte de sua personalidade e foi construída ao longo dos anos, por meio de escolhas e ações.
“Sua santidade não foi exposta quando ela foi diagnosticada” com câncer cerebral, disse Brian. “Sua santidade veio e cresceu ao longo de sua vida em sua busca por virtudes e oferecendo seus talentos a Deus.”
Diagnóstico de tumor cerebral mudou a vida da adolescente
Em janeiro de 2019, quando tinha 16 anos, Maria recebeu o diagnóstico de um tumor cerebral inoperável localizado no tronco encefálico. A família foi informada pelos médicos de que a expectativa de vida poderia variar entre nove e 12 meses.
O padre Simione Volavola, dos Missionários do Sagrado Coração, acompanhava Maria desde a infância e estava presente quando a notícia foi comunicada. Segundo ele, a reação da adolescente foi marcada pela tranquilidade.
“Ela era a pessoa mais tranquila na sala”, disse Volavola. “Ela simplesmente aceitou com muita calma e aceitou muito rapidamente.”
Com o avanço da doença, as limitações físicas aumentaram e o sofrimento se tornou mais intenso. Mesmo assim, o sacerdote afirmou que Maria manteve a serenidade durante o tratamento.
“Ela nunca perdeu essa paz”, disse Volavola. “O corpo estava falhando. Ela estava realmente sofrendo, mas muito graciosa na maneira como carregava sua cruz.”
Durante todo o período da doença, a jovem continuou esperando por uma recuperação considerada milagrosa. Ao mesmo tempo, procurava aceitar os acontecimentos e confiar na vontade de Deus.
Os diários mantidos desde a infância revelaram aos familiares uma dimensão ainda mais profunda de sua espiritualidade. Aos 11 anos, uma das primeiras anotações registradas por Maria trazia uma mensagem curta: “Deus é misericordioso”.
Já nos últimos meses de vida, quando o tumor comprometeu sua capacidade de escrever, ela conseguiu registrar duas palavras que posteriormente dariam nome à fundação criada em sua memória: “Pense esperança”.
Mesmo com a perda progressiva de movimentos e outras capacidades, Maria continuou demonstrando preocupação com pessoas que enfrentavam dificuldades.
Nove meses depois do diagnóstico, viajou com os pais para Uganda, onde estudantes da Academia Papa João Paulo II acompanhavam sua situação e rezavam por sua recuperação. Durante a visita, uma estudante chamada Patience entregou uma carta à adolescente, pedindo orações pelo irmão, que tinha anemia falciforme.
Mais tarde, quando recebeu a oportunidade de realizar um desejo por meio da organização Make-A-Wish, Maria decidiu direcionar o benefício à família da menina e à escola onde ela estudava.
Durante o isolamento provocado pela pandemia, amigos e pessoas de diferentes lugares organizaram encontros virtuais para rezar pela recuperação da jovem. Uma das reuniões, realizada pelo Zoom, reuniu mais de 2 mil participantes. A demonstração de apoio também chegou às ruas, com uma carreata que contou com mais de 500 veículos em frente à residência da família Middleton.
Segundo Susan, mesmo quando perdeu movimentos, audição, capacidade de engolir e de falar, a filha não demonstrou desespero diante da evolução da doença.
“Ela assistiu quando suas pernas não funcionavam e seus braços não funcionavam”, disse Susan. “E ela não podia mais ouvir. E ela não podia mais engolir. E ela não podia mais falar. Ela sabia que tudo isso estava acontecendo e ela não se desesperou.”
Maria morreu em 8 de outubro de 2020, aos 18 anos. Desde então, os pais passaram a dedicar parte de suas atividades à preservação e divulgação da história da filha. Em 2025, foi lançado o livro Think Hope: Maria Middleton’s Life of Unyielding Trust in God, publicado pela editora Ascension.
Na celebração que marcou o aniversário de sua morte, o arcebispo Nelson Pérez destacou que o reconhecimento oficial da santidade de Maria não é o único aspecto importante de sua trajetória. Para ele, o impacto de seu testemunho na vida de outras pessoas já representa um legado significativo.
“A fé é como uma onda”, disse ele, citando Maria. “Quando você tem fé e a mostra, ela impactará a vida de outras pessoas.”
Em entrevista ao National Catholic Register, Pérez também ressaltou que a história da adolescente pode servir de inspiração especialmente para os mais jovens.
“Maria diz aos jovens, vocês também podem ter grande fé”, ele disse ao Register. “Vocês também podem ser santos. Vocês também podem ter esperança.”
“Vocês também podem viver uma vida de esperança e amor pela vida”, continuou Pérez, “de fé e amor pelo Senhor e por sua Igreja.”
