Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, integrantes do grupo Prerrogativas, protocolaram uma notícia de fato na Polícia Federal para solicitar uma apuração urgente sobre uma possível articulação envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e pessoas próximas à campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A suspeita apresentada é de que o material atribuído ao ex-dono do Banco Master poderia ser utilizado para influenciar o segundo turno da eleição presidencial, previsto para 25 de outubro, e também interferir nas investigações relacionadas ao banco.
Segundo o documento, datado de quinta-feira (8), um HD que conteria um depoimento atribuído a Vorcaro teria chegado às mãos de terceiros. O conteúdo supostamente traria acusações contra adversários políticos de Flávio Bolsonaro, integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e ministros de Estado. Os advogados avaliam que a divulgação poderia ocorrer próximo à votação, dificultando a checagem das alegações e a apresentação de eventuais respostas.
Advogados pedem que PF confirme existência do material
A representação afirma que as acusações atribuídas ao banqueiro não teriam sido acompanhadas de provas e poderiam fazer parte de uma tentativa de deslocar a atenção das investigações envolvendo o Banco Master. Os próprios autores, contudo, deixam claro que não tiveram acesso ao suposto conteúdo e pedem que a Polícia Federal verifique se a gravação realmente existe, além de identificar sua origem e seu teor. Um áudio com conteúdo semelhante foi divulgado na quinta-feira pelo site da revista Veja.
A preocupação aumentou depois de informações de que Vorcaro, que está preso preventivamente desde março, estaria em tratativas para conceder uma entrevista exclusiva a uma emissora de televisão. Segundo a Folha de S.Paulo, representantes do banqueiro teriam procurado a Globo, enquanto a Record também teria demonstrado interesse. A escolha, conforme os relatos, poderia considerar qual emissora oferecesse mais tempo para a entrevista. Uma eventual gravação realizada dentro do presídio dependeria de autorização judicial.
Em entrevista à Folha, Marco Aurélio, que coordena o Prerrogativas e participa da coordenação da campanha de Lula, afirmou ter recebido informações sobre uma possível tentativa de estimular Vorcaro a fazer declarações relacionadas ao financiamento de um documentário sobre o presidente brasileiro dirigido pelo cineasta Oliver Stone.
Ainda conforme o relato apresentado pelos advogados, o banqueiro teria recebido a promessa de cumprir prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, depois das eleições. A informação também apontaria para a possibilidade de seu pai, Henrique Vorcaro, ser colocado em liberdade imediatamente.
O documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone, foi lançado em 2024. Marco Aurélio negou qualquer participação financeira de Vorcaro na produção e afirmou que a acusação teria como objetivo criar uma comparação com os recursos destinados ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro já é investigado por recursos ligados a Vorcaro
A representação apresentada à PF também cita uma relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro que já está sob investigação.
Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para apurar repasses feitos por Vorcaro relacionados à produção de “Dark Horse”. Flávio Bolsonaro e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, foram incluídos entre os investigados.
O caso começou após mensagens e áudios divulgados pelo The Intercept Brasil mostrarem Flávio negociando com o banqueiro um financiamento de US$ 24 milhões, valor estimado em cerca de R$ 134 milhões na época, para a produção do filme sobre seu pai.
As informações que deram origem ao inquérito indicam que aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido efetivamente transferidos. A Polícia Federal apura a destinação dos recursos e a possibilidade de parte do dinheiro ter sido direcionada a atividades de aliados de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro reconheceu que pediu recursos para a realização do longa-metragem, mas negou qualquer irregularidade e declarou que se tratava de dinheiro privado.
Para os advogados que apresentaram a notícia de fato, essa relação financeira precisa ser considerada na apuração de uma eventual tentativa de interferência no processo eleitoral.
Na avaliação apresentada à Polícia Federal, uma possível articulação poderia buscar simultaneamente reduzir a atenção sobre as investigações envolvendo os repasses do Banco Master e colocar acusações contra Lula e integrantes de seu governo no centro do debate durante a reta final da eleição.
Relatos anteriores já apontavam possível estratégia política de Vorcaro
A possibilidade de Daniel Vorcaro estar considerando o cenário eleitoral em suas estratégias para tentar melhorar sua situação judicial já havia sido mencionada por pessoas próximas às investigações do Banco Master.
Em junho, o ICL Notícias informou que investigadores suspeitavam de que o banqueiro estaria mantendo negociações para uma colaboração premiada enquanto apostava em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. De acordo com os relatos, Vorcaro avaliaria que uma vitória do senador poderia contribuir para sua saída da prisão.
As suspeitas surgiram depois de tentativas de acordo de colaboração que não avançaram. As propostas apresentadas pelo banqueiro teriam sido recusadas porque as informações fornecidas não eram consideradas relevantes o suficiente para justificar a celebração de um acordo.
Outra reportagem do ICL Notícias, publicada em setembro, relatou que uma possível iniciativa de Vorcaro contra integrantes do governo Lula era interpretada por fontes que acompanhavam o caso como uma tentativa de retaliação e de interferência no cenário eleitoral.
A nova representação acrescenta a esse contexto a alegação de que uma gravação com acusações contra adversários de Flávio Bolsonaro estaria circulando entre terceiros. Os advogados querem descobrir se houve coordenação entre Vorcaro, seus intermediários e pessoas relacionadas à campanha presidencial.
Pedido inclui apuração sobre gravação e possíveis vínculos eleitorais
Entre as medidas solicitadas à Polícia Federal está a verificação da existência do suposto HD, além da identificação de quem teria produzido, recebido e encaminhado a gravação. Os advogados também pedem que seja reconstruído o percurso do material até seus possíveis destinatários.
Outro pedido envolve os registros de visitas, atendimentos e entrada de aparelhos eletrônicos na unidade prisional onde Vorcaro está detido nos últimos 90 dias. A intenção é verificar se algum conteúdo foi gravado dentro do local e como uma eventual gravação poderia ter deixado o presídio.
A representação também solicita a identificação dos intermediários que estariam negociando a entrevista de Vorcaro com emissoras de televisão. Os advogados querem saber se essas pessoas receberam pagamentos e se possuem algum tipo de ligação com integrantes, fornecedores ou financiadores da campanha de Flávio Bolsonaro.
Se a gravação for localizada, o pedido é para que seu conteúdo seja confrontado com depoimentos oficiais prestados por Vorcaro e com informações apresentadas em propostas anteriores de colaboração premiada que não foram aceitas pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República.
Os advogados mencionam ainda a possibilidade de crimes como obstrução de investigação, denunciação caluniosa e divulgação de informações falsas com potencial para influenciar o eleitorado. A eventual responsabilização, entretanto, dependerá da confirmação dos fatos e da identificação dos responsáveis.
A representação pede também que o caso seja encaminhado ao ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF, e à Procuradoria-Geral Eleitoral, para que sejam avaliadas possíveis providências.
O documento ressalta, por fim, que a apuração deve se concentrar na origem, produção e circulação do suposto material, sem interferir na liberdade de imprensa ou no sigilo das fontes jornalísticas.
