O lema é viver e aceitar suas derrotas, triunfos, potencialidades e deficiências. Lapidar a si mesmo “jogando fora” o que causa o sofrimento desnecessário. Ninguém aqui vai trazer um manual de como viver bem a vida, como se fosse fácil ser demitido, ser traído, perder um grande amor para a morte, que é indeclinável. Mas sim, mostrar que a vida é difícil, mas dificultamos este processo quando não depositamos valor ao que realmente importa, visto que tudo, absolutamente tudo, é transitório.
Com o Brasil ocupando o posto de 4º país mais estressado do mundo, segundo o relatório global World Mental Health Day 2024, a “Dezembrite” se apresenta como uma síndrome marcada pela frustração típica do fim de ano, exacerbada pelas confraternizações e cobranças características desse período. De acordo com o ISMA (Instituto de stress e saúde mental, – International Stress Management Association), 80% das pessoas economicamente ativas apresentam níveis maiores de estresse, ansiedade e até depressão no final do ano.



O fim do ano é um período de emoções intensas, marcado tanto por celebrações quanto por reflexões e cobranças internas.
A psiquiatra Tania Ferraz Alves, do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP), caracteriza as semanas de dezembro como um período de “aumento significativo de estresse”.
“Há cobranças para finalizar tudo antes do ano acabar, um ambiente de comparação constante entre as pessoas e muitas celebrações em que se exibe apenas o ‘lado A’, o que chamamos de ‘lado Instagram’ — as conquistas, as realizações, o sucesso aparente.”
“Por outro lado, ao se comparar com os outros, muitas pessoas focam nas próprias dificuldades, no que não alcançaram, no que não deu certo, sentindo-se menos importantes ou até frustradas.”
A psiquiatra explica que os sentimentos de inadequação e a sobrecarga emocional, tão comuns nessa época, podem atingir qualquer pessoa. No entanto, para quem já enfrenta um quadro de depressão, esses fatores podem ser ainda mais intensos e perigosos.
“É uma época em que muitas vezes as pessoas lidam com uma espécie de balanço do ano, revisitando conquistas, mas também falhas e desafios. Essa reflexão pode ser angustiante, principalmente para quem já está vulnerável emocionalmente. O que era para ser uma celebração se transforma em um período de maior cobrança interna e sofrimento”, comenta.
A situação já ganhou até um nome: a “dezembrite”.
Spanemberg aponta que alguns grupos podem ser ainda mais suscetíveis a crises ou agravamento dos sintomas nessa época do ano.
“Pessoas que possuem experiências familiares negativas, como famílias desagregadas, traumas ou vivências disfuncionais, tendem a ser mais sensíveis. O mesmo ocorre com quem perdeu alguém próximo no último ano. Passar por datas significativas pela primeira vez, como o Natal ou o Réveillon, pode evocar memórias dolorosas e intensificar o sofrimento emocional.”
Além disso, fatores como noites mal dormidas, excesso de festas, uso de álcool e até mesmo a interrupção do tratamento medicamentoso — algo que não é incomum nesta época — podem agravar os sintomas.
Dá para evitar crises e recaídas quando se tem depressão?
“O primeiro passo para quem tem depressão é manter o tratamento em dia. A interrupção de medicamentos ou da psicoterapia pode aumentar o risco de recaídas. Além disso, intensificar o suporte psicoterápico (mais sessões de terapia) pode ajudar a lidar com os sentimentos despertados nesse período”, avalia o psiquiatra Lucas Spanemberg.
Tânia Ferraz Alves recomenda avaliar com cuidado o que realmente não se pode perder e o que poderia causar ainda mais desconforto emocional.
“Escolher eventos que realmente façam sentido, seja pela necessidade – como algo do trabalho que não se pode perceber, ou pelo desejo de participar, ajuda a evitar sobrecargas desnecessárias. Nem sempre é saudável se forçar a estar em festas se isso gera desgaste emocional. Reconhecer os próprios limites, desacelerar e priorizar o bem-estar são atitudes fundamentais para atravessar o período de fim de ano.”
Outro ponto importante é evitar tratar o fim de ano como uma corrida contra o tempo, tentando concluir tudo como se fosse uma competição.
