Na última segunda-feira (23/02), a Agência Einstein divulgou estudo publicado em novembro de 2025 na revista JAMA que identificou aumento no uso de medicamentos como Mounjaro e Ozempic por mulheres no pós-parto, especialmente na Dinamarca, onde dados de nascimentos entre 2018 e 2024 foram cruzados com prescrições médicas nacionais. A análise aponta crescimento expressivo da busca por agonistas do receptor de GLP-1 nos primeiros seis meses após o parto. As informações são da Agência Einstein e da CNN.
A pesquisa avaliou mais de 382 mil gestações e identificou 1.549 mulheres que utilizaram semaglutida ou liraglutida até 182 dias após o parto. Em 2018, menos de cinco usuárias a cada 10 mil partos recorreram aos medicamentos. Em 2024, a taxa chegou a 173 a cada 10 mil nascimentos. A liberação da semaglutida para tratamento da obesidade na Dinamarca, em dezembro de 2022, marcou ponto de inflexão na curva de crescimento.



Pressão estética e aumento da procura
“Desde 2023, o uso de agonistas do GLP-1 aumentou drasticamente”, afirmou Mette Bliddal, pesquisadora da Universidade do Sul da Dinamarca e autora do estudo. “Observamos que a maioria das mulheres que buscaram o produto em 2023 e 2024 estavam acima do peso antes da gravidez e não tinham histórico de diabetes.”
No Brasil, endocrinologistas relatam movimento semelhante. “Desde a popularização das medicações agonistas do GLP-1, percebo um aumento da procura por mulheres no pós-parto”, afirmou Carlos André Minanni, do Hospital Israelita Albert Einstein. “A busca se dá tanto por pessoas que já apresentavam sobrepeso ou obesidade antes da gestação quanto por puérperas com um IMC (Índice de Massa Corporal) não tão elevado.”
Segundo o especialista, desconforto com a aparência, receio de não retornar ao peso anterior, baixa autoestima e histórico de efeito sanfona figuram entre as principais razões apresentadas pelas pacientes. O médico destaca que o puerpério envolve fragilidade física e emocional. “O pós-parto é um período de grande vulnerabilidade física e emocional. A medicalização rápida do peso pode mascarar ansiedade, depressão pós-parto ou padrões de compulsão e restrição”, alertou.
Efeitos sobre amamentação ainda exigem cautela
A segurança do uso dessas medicações durante a amamentação ainda não está plenamente estabelecida. “Pequenos estudos sugerem que a semaglutida não passa para o leite materno em quantidades mensuráveis, e não foram relatados danos claros nos bebês amamentados”, explicou Bliddal. “No entanto, isso não significa que os medicamentos sejam comprovadamente seguros durante a amamentação.”
Entre os efeitos adversos conhecidos estão náusea, vômito, diarreia, constipação, aumento da fadiga e dificuldade para manter nutrição adequada. Há também risco mais raro de colecistite e pancreatite. Especialistas consideram a possibilidade de impacto na produção ou na composição do leite materno, ponto que ainda demanda investigação.
“Em um cenário de pós-parto sem amamentação ou depois que ocorre o desmame, a discussão pode existir quando há obesidade ou sobrepeso com comorbidades”, ponderou Minanni. O endocrinologista defende análise individualizada, com avaliação da gravidade do quadro, saúde mental, histórico alimentar e planejamento reprodutivo. “É fundamental validar as queixas sem endossar pressa, reconhecendo o incômodo sentido por elas, mas lembrando de enquadrar o pós-parto como fase de adaptação temporária”, afirmou. “Esses medicamentos não podem ser vistos como atalhos cosméticos. O tratamento, se realmente necessário, deve ser feito no momento certo e com o devido acompanhamento médico.”
