O banco Digimais, de Edir Macedo, investigado em uma operação da Polícia Federal por suspeitas de irregularidades em suas demonstrações financeiras, informou em seu balanço referente a 2025 que dispunha de R$ 2,1 bilhões em liquidez, somando caixa e aplicações de resgate imediato. Segundo o documento, esses valores poderiam ser acessados a qualquer momento.
De acordo com os investigadores, a realidade financeira da instituição seria diferente da apresentada nos relatórios, com indícios de insuficiência de recursos e risco de intervenção por parte do Banco Central do Brasil. A apuração também cita possíveis inconsistências na forma como ativos eram avaliados e registrados.

“A diretoria do Banco Digimais replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito”.
Os dados do segundo semestre de 2025 mostram que o banco teria iniciado julho do ano anterior com R$ 2,8 bilhões em “caixa e equivalentes de caixa”, valor que teria recuado para R$ 2,1 bilhões em 31 de dezembro. A quantia, no entanto, não é apresentada de forma detalhada na demonstração financeira, sendo descrita apenas como aplicações de liquidez imediata estimadas em R$ 2 bilhões e operações compromissadas de cerca de R$ 127 milhões.
Além disso, o balanço indica R$ 4,2 bilhões em títulos e valores mobiliários e uma carteira de crédito de R$ 1,89 bilhão. Uma auditoria independente realizada antes da operação não identificou problemas de liquidez, risco de continuidade ou incapacidade de honrar obrigações.
Investigação aponta irregularidades desde 2023
Segundo a Polícia Federal, o Banco Digimais já era alvo de apurações do Banco Central do Brasil desde 2023. Em fevereiro daquele ano, a instituição passou a adquirir precatórios por meio do fundo ID112, envolvendo créditos ligados a uma ação judicial antiga contra a União. O ativo foi posteriormente transferido ao fundo Guidare e reavaliado de R$ 9 milhões para R$ 100 milhões.
No decorrer do mesmo ano, novos precatórios da mesma origem foram comprados por R$ 42 milhões e reavaliados em R$ 304 milhões. Conforme a PF, essas operações “elevaram o registro de patrimônio do fundo para o patamar de R$ 741.348.945,70, muito embora o custo de aquisição dos ativos perfizesse a soma de apenas R$ 71.000.000,00”.
O Banco Central apontou irregularidades na reavaliação desses ativos e determinou o retorno aos valores originais. Mesmo assim, o banco teria transferido as cotas para sua controladora indireta, a B.A. Empreendimentos, com pagamento previsto para 2032 e reversão de provisões exigidas pelo regulador.
Auditorias independentes também registraram ressalvas sobre as operações, tanto no banco quanto na controladora. A B.A. Empreendimentos viu seus ativos saltarem de R$ 785 milhões em 2024 para cerca de R$ 1,8 bilhão em 2025, impulsionados por uma operação considerada atípica no fim do ano.
Segundo os auditores, a compra do fundo “não reflete condições usuais de mercado”, já que não apresenta remuneração compatível e depende de aportes dos próprios controladores. Na avaliação técnica, isso sugere possível superavaliação artificial dos ativos.
Conexões com o Banco Master e modelo de atuação
Na representação que embasou a operação Miragem, a Polícia Federal afirmou que o Banco Digimais teria adotado práticas semelhantes às atribuídas ao Banco Master, investigado por supostas fraudes no sistema financeiro. O documento cita que o modelo de atuação do grupo teria influenciado outras instituições e servido como referência operacional.
A PF também destacou que, em janeiro de 2025, o ex-executivo do Banco Master, Maurício Antonio Quadrado, tentou adquirir o Digimais por meio da holding Bluebank, operação posteriormente vetada pelo Banco Central do Brasil por risco ao sistema financeiro.
Além disso, o Digimais teria aplicado cerca de R$ 600 milhões em carteiras de direitos creditórios ligadas ao Banco Master. Para os investigadores, a combinação de ativos considerados de origem duvidosa e captação de recursos com remuneração acima da média de mercado pode indicar práticas de gestão temerária ou irregular.
