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Beber álcool faz bem para o coração? Revisão científica reacende polêmica e divide especialistas

Associação Americana do Coração volta a discutir possíveis efeitos do álcool na saúde cardiovascular, mas médicos e entidades alertam para riscos ignorados
Beber álcool faz bem para o coração? Revisão científica reacende polêmica e divide especialistas

O velho debate sobre álcool e saúde voltou ao centro das atenções. A ideia de que beber com moderação poderia trazer benefícios ao coração, considerada ultrapassada por muitos especialistas, reapareceu após uma nova revisão científica divulgada pela Associação Americana do Coração (AHA).

O levantamento analisou estudos sobre consumo moderado — em média uma a duas doses diárias — e concluiu que esse hábito não estaria associado a maior risco de doenças coronarianas, AVC, morte súbita ou insuficiência cardíaca. Em alguns casos, segundo os autores, haveria até uma possível redução dessas ocorrências.

A publicação, feita na revista Circulation, rapidamente ganhou repercussão e passou a ser questionada por profissionais de saúde pública, que veem com cautela qualquer mensagem que possa relativizar os impactos negativos do álcool.

Álcool, ciência e controvérsia

Entidades internacionais como a Rede Europeia do Coração e a Federação Mundial do Coração contestam as conclusões da revisão. Para esses grupos, evidências mais recentes indicam que mesmo pequenas quantidades de álcool já aumentam o risco de problemas cardiovasculares e outros agravos à saúde.

Além disso, médicos alertam que o foco exclusivo no coração ignora efeitos amplamente documentados do álcool, como o aumento da incidência de câncer. Estudos apontam que tumores de boca, esôfago e mama, por exemplo, podem ter o risco elevado mesmo com consumo considerado “leve”.

Nos Estados Unidos, a discussão ganhou ainda mais peso após o governo retirar de circulação um relatório que associava o álcool a pelo menos sete tipos de câncer. O documento indicava que o risco começa a crescer a partir de apenas uma dose diária.

Para a diretora científica da AHA, Mariell Jessup, a revisão não deve ser interpretada como recomendação médica. Segundo ela, as diretrizes da associação continuam as mesmas: quem não bebe não deve começar, já que não há comprovação sólida de que o álcool previna doenças cardíacas.

Críticos também apontam possíveis conflitos de interesse na seleção dos estudos analisados e afirmam que sugerir benefícios pode ser perigoso, dada a ampla lista de danos associados ao consumo alcoólico. “No melhor dos cenários, esses benefícios são incertos”, afirma a médica e pesquisadora Elizabeth Farkouh. “E mesmo que existissem, há inúmeras formas comprovadas de proteger o coração sem aumentar o risco de câncer ou outros problemas.”

No fim das contas, a revisão reacende uma discussão antiga, mas deixa claro que, para a maioria dos especialistas, a prudência continua sendo a melhor escolha quando o assunto é álcool e saúde.

alfinetei

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