Um virologista dos Estados Unidos apresentou uma cerveja produzida com leveduras geneticamente modificadas capaz de estimular resposta imune contra um subtipo de poliomavírus, iniciativa que levantou questionamentos científicos e éticos. A proposta foi divulgada pelo próprio pesquisador em plataformas públicas e não passou por revisão formal por pares. As informações são do CNN Brasil.
O responsável pela ideia é Chris Buck, cientista dos Institutos Nacionais de Saúde, conhecido por ter participado da identificação de quatro dos 13 poliomavírus humanos já descritos. A bebida foi produzida em ambiente doméstico e integra uma linha de pesquisa iniciada há mais de 15 anos voltada ao desenvolvimento de uma vacina tradicional contra o poliomavírus BK.



Experimento doméstico e reação da comunidade científica
A proposta descrita por Buck envolve o uso de leveduras alteradas em laboratório para produzir partículas semelhantes a componentes do vírus dentro de uma cerveja artesanal. A expectativa era que, ao serem ingeridas, essas leveduras estimulassem o sistema imunológico a produzir anticorpos. Estudos anteriores com animais já haviam indicado respostas imunes relevantes, inclusive com administração por via oral.
Para explorar a hipótese em humanos, o pesquisador e um familiar consumiram a bebida experimental e, depois, analisaram os níveis de anticorpos. Segundo o relato divulgado, houve aumento da resposta imunológica sem efeitos adversos relatados. Buck defende que abordagens baseadas em alimentos poderiam reduzir custos, ampliar o acesso e acelerar o desenvolvimento de imunizantes, especialmente para pessoas imunossuprimidas, como pacientes transplantados.
A divulgação do experimento provocou reação dentro do próprio NIH. Comitês de ética da instituição afirmaram que o pesquisador não tinha autorização para realizar testes de autoexperimentação nem para publicar dados preliminares em blogs e repositórios públicos antes de avaliação científica adequada. Também foi apontado que o número reduzido de participantes impede conclusões confiáveis sobre segurança e eficácia.
Em declarações públicas, Buck afirmou que as restrições institucionais se aplicam ao ambiente de trabalho, não à sua vida pessoal, e defendeu a divulgação antecipada dos resultados. “A burocracia está inibindo a ciência, e isso é inaceitável para mim”, afirmou. “Uma semana de pessoas morrendo por desconhecerem isso não é trivial.”
O cientista também sustenta que a bebida poderia ser enquadrada como alimento ou suplemento, já que seus componentes estão presentes na cadeia alimentar e atendem aos critérios de segurança da agência reguladora norte-americana. “O que não podemos afirmar é que ela é eficaz para qualquer doença específica”, declarou. “A única maneira de fazer isso é com a aprovação total do FDA”.
Especialistas contrários à iniciativa alertam que propostas desse tipo podem reforçar desinformação e fortalecer discursos contrários à vacinação. Buck afirma que pretende seguir com testes em modelos animais e ampliar o número de participantes humanos para demonstrar segurança e benefício clínico.
